Thursday, July 19, 2007

Embaixador João Brito Câmara: Relações Históricas - Portugal - Filipinas

Da esquerda para a direita: Embaixadores Brito Câmara e Mesquita de Brito, Embaixatriz Brito Cãmara, João Brito Câmara e esposa Paula; Jorge Morbey (Conselheiro Cultural) Sérgio Lopes (Representante da TAP, na altura, em Banguecoque.

Há nove anos o Senhor Embaixador de Portugal em Manila (Filipinas), Dr. João Brito Câmara, permaneceu oito dias em Banguecoque e de quando seu filho João iniciava a sua carreira diplomática no Estrangeiro.
Tinha sido colocado na Embaixada de Portugal na capital tailandesa.
O Senhor Embaixador Brito Câmara é um entusiasta em cima da história portuguesa no Oriente.
Uns oito dias depois de regressar a Manila enviou-me um dos seus trabalhos.
Li, na altura, as várias páginas e arrumei-as numa prateleira.
Ao acaso há dois dias encontrei-as e voltei a relê-las.
Como penso ser matéria, histórica, desconhecida tomo a liberdade de as inserir na Internet.
José Martins

RELAÇÕES HISTÒRICAS - PORTUGAL - FILIPINAS
CAP.1
SÉCULO XVI

Por insólito que possa parecer as relações Portugal-Filipinas começaram, documentalmente, com a tomada de Malaca por Afonso de Albuquerque em 24 de Agosto de 1511. O Sultão Mohamed, que veio a perder a cidade, era um perigoso inimigo do reino do Sião com quem se encontrava em guerra.
Com a queda de Malaca, o Sião foi deixado em paz, ficando, ainda, todavia com a incómoda vizinhança da Birmânia. Um inimigo de menos mas não a paz completa.

Albuquerque havia até proposto ao Rei de Ayuthaya - a então capital do Sião onde viveram até 1767, data da queda da cidade às mãos dos birmaneses, muitos portugueses - uma expedição conjunta para atacarem aquele Sultão.

Mas o rei, talvez com medo das consequências, recusara. Albuquerque avançou sózinho e capturou Malaca. Era a cidade um grande centro de comércio - e continuou a sê-lo. Dissemos.mais acima, que documentalmente a cidade de Malaca veio a desempenhar um grande papel nas relações luso-filipinas porque o primeiro europeus que escreveu sobre os Luções foi o português Tomé Pires na sua "Suma Oriental", redigida precisamente naquela cidade entre 1512 e 1516. Luções eram habitantes da ilha de Luzón e estes vinham até Malaca para comerciar.

Tomé Pires nasceu em Portugal antes de 1470 e era filho de um boticário do Rei D. João II (1455-1459). Como seu pai frequentava a Corte, Tomé estabeleceu amizade com o futuro Governador da Índia, Lopo Soares de Albergaria. Partiu para o Oriente provávelmente em 1511, tendo viajado e vivido em diversas cidades pertencentes à Coroa portuguesa.

Afonso de Albuquerque enviou-o para Malaca a fim de averiguar a possível corrupção de alguns funcionários reais. Tomé Pires, enquanto permaneceu nesta cidade de 1512 a 1516 foi, entretanto, até ao Pegu (Birmânia), Java e Samatra. Era um homem com grande curiosidade e começou a recolher notícias sobre as terras, reinos e povos do Extremo-Oriente aos quais incluiu na "Suma Oriental".

Sobre os Luções escreveu: "todos os anos enviam navios de comércio para Bornéu e Malaca e os comerciantes de Bornéo costumam navegar até Luzón para comprar ouro e alimentos e, depois, vende-los para Bornéo, Malaca e outras ilhas no Sudeste Asiãtico". Diz,ainda, que "estava estabelecida uma colónia de comerciantes "filipinos" com500 pessoas em Minjam (hoje chamada Dingding) perto de Malaca.

Elogiando estes comerciantes Pires comenta: "São um povo muito habilidoso e trabalhador... alguns são importantes e bons comerciantes". 1 Acrescentemos que a palavra Luzón vem de "Liu-Sung" termo utilizado por chineses e japoneses para designarem terras próximas do continente ou do interior. 2

- São devidos os melhores agradecimentos à Senhora D. Palmira Leandro Silva pela dactilografia do manuscrito.
1. Dra. Sonia Zaide "The Philipines: A Unique Nation" pag.50, edição 1994.
2 A.M. Molina, "The Philipines Through the Centuries", Vol. 1, pag.1, edição 1960
Tomé Pires foi enviado em 1516 como mbaixador de Portugal ao Imperador da China. Surgiram, entretanto, várias complicações e Tomé Pires apenas conseguiu atingir Beijing nos ínicios de 1521, pouco tempo antes do falecimento do Imperador Cheng-Té (1506-1521) da dinastia Ming. É possível que o Imperador nem sequer o tenha recebido. Os tempos eram muito difíceis para os estrangeiros e, segundo o historiador chinês Zhang Tianze 3 Tomé Pires, o primeiro europeu que escreveu sobre os Luções, morreu de doença numa prisão de Cantão (Guangzhou) em 1524.

Se o primeiro europeu que deixou obra escrita sobre os Luções foi um português, também foram os portugueses os primeiros a desenhar mapas das futuras Filipinas. Devemos transcrever, a este propósito, as palavras de Raleigh Ashlin Skelton, antigo Superintendente da Sala dos Mapas do British Museum e que sintetizam bem um certo período histórico: "The discovery and the settlement of the Islands were accomplished under the Spanish flag, but through the 16th century it was the Portuguese who took the lead in mapping them" 4. Refere, depois, que o mais antigo mapa europeu relativo a uma parte do arquipélago parece ser o desenhado por Francisco Rodrigues, elaborado em Macau cerca de 1513, baseado, sem dúvida, em informações de pilotos malaios ou chineses.

Sobre esta actividade científica dos portugueses existe o testemunho dos navegadores espanhois. O próprio Legazpi foi aconselhado, em 1564, a verificar as cartas feitas pelos portugueses. Malaca teve ainda importância num outro aspecto relacionado com as Filipinas: com o plano apresentado por Fernão de Magalhães ao Rei de Portugal Dom Manuel I (1469-1521) para se alcançarem as Índias navegando pelo Ocidente.

Magalhães nascera no Norte de Portugal e, depois de uma vida aventurosa igual à de milhares de Portugueses daquela época, em África e no Extremo-Oriente, convencera-se de que seria possível, no seguimento da ideia de Colombo, atingir as Molucas e as ilhas das especiarias por uma rota ocidental. Depois de uma audiência com o rei D.Manuel I este recusou subsidiar-lhe a viagem, tal como seu cunhado e antecessor no trono, Dom João II (1455-1495) recusara a ideia de Colombo.

Aparentemente há aqui uma continuidade da política portuguesa da época: a de que não seria rentável viajar por Ocidente para se atingir as Índias. Teóricamente talvez fosse possível mas os reis preocupavam-se com a política prática e esta aconselhava a que o caminho pela rota do Sul de África era aquele que devia ser tomado. É preciso ver que desde 1488, com a viagem de Bartolomeu Dias que rodeara o Cabo da Boa Esperança, sabiam os portugueses que a passagem para as Índias existia, se se navegasse para oriente, depois de ultrapassar o extremo de África.

Todo o problema consistia em se atingir as fabulosas Índias. Mas - navegando para o ocidente, em direcção ao continente americano, ou rodeando a África e tomando o rumo do Oriente? Onde haveria uma passagem? E se não existisse?

Colombo chegara em 1492 à América central. E o que encontraria? Populações pobres, poucos vestígios de ouro, nenhumas pedras preciosas, nenhuma riqueza. Vasco da Gama, seis anos depois, em 1498, alcançava a Índia, plena de riquezas, dotada de uma civilização milenária e até com alguns de orientação nestoriana.

3 Pág. 77 de "O comércio sino-português entre 1514 e 1644 - Uma síntese de fontes portuguesas e chinesas", introdução de Jorge Santos Alves e tradução de Pedro Catalão, edição do Instituto Português do oriente.
4 Pag. 116 "Philippines Cartography In the British Musem", publicado nos " Proceeding of the International Congress on Rizal 4-8, 1961", pela National Historical Commission, Manila, 1972.

Dom João II fizera bem em recusar a proposta de Colombo e Dom Manuel I também ao despedirem Magalhães. Isto de um ponto de vista de política prática, como referimos, não de especulação teórica.Magalhães participou na conquistas de Malaca em 1511 onde salvou a vida de seu primo e amigo Francisco Ferrão e, se ele próprio não empreendeu uma viagem secreta até às Molucas, Serrão, que naufragou em 1512, foi parar a Mindanao onde certamente soube que havia outras ilhas e populações mais ao norte.

Correspondeu-se com Fernão Magalhães e incitou-o a tentar a viagem pelo ocidente. Serrão chegou a Capitão de Ternate, nas Molucas, onde certamente recolheu muitas informações. Após a recusa de Dom Manuel, certo é que Magalhães, depois de discutir largamente o seu plano, no Porto, com o célebre astrónomo português Rui Faleiro, o qual concordara com ele, partiu para Espanha, logo seguido de Faleiro.

Magalhães por intermédio de Diogo Barbosa, pai de Duarte Barbosa, seu futuro cunhado e subordinado na viagem de circumnavegação, o qual haveria de suceder-lhe, por breve intervalo de tempo, no comando da frota e morrer também nas Filipinas, 5 conseguiu ter acesso ao jovem Rei Carlos V e convencer o monarca e os seus cartógrafos de que a viagem por ocidente era realizável.

Casou-se, entretanto, Magalhães com D. Beatriz, filha de Diogo Barbosa, de quem teve um rapazinho, Rodrigo, e, quando deixou a espanha, a caminho da célebre viagem, sua mulher estava de novo, grávida. Digamos só de passagem que, enquanto Magalhães tombava em Mactan, o pequeno Rodrigo, D. Beatriz e um outro filho morriam sucessivamente em Sevilha.

Ainda hoje se pode ver, na Torre de oro, naquela cidade, um retrato a óleo que se diz ser de Magalhães. Quando o Rei Dom Manuel soube que Magalhães se encontrava em Espanha e se separava para tentar descobrir o caminho para as Índias, por ocidente, reagiu da mesma forma que Dom João II: impedir que a viagem se realizasse por ir contender eventualmente com a zona mundial de influência portuguesa.

Deu instruções ao seu Embaixador em Espanha, Alvaro da Costa, para protestar junto de Carlos V por súbditos seus, Magalhães e Faleiro, haverem sido nomeados Capitães Generais da frota, pedindo a sua remoção dos cargos. Não o conseguiu. Houve também tentativas de sabotagem dos navios e um motim popular nos estaleiros, o que foi atribuído aos portugueses...6 Em 20 de Setembro de 1519, cinco navios sob o comando de Mahalhães deixaram San Lúcar.

Quase um ano e meio depois, em 17 de Março de 1521, avistaram a montanhosa Samar. A viagem foi acidentada quer devido aos fenómenos naturais quer devido às discórdias entre os Capitães espanhois e Magalhães, reflexo da rivalidade que, então, existia entre os dois reinos peninsulares. O próprio Juan Sebastian del Cano, o homem que completou a viagem, igualmente se revoltou mas foi perdoado por Magalhães, enquanto um outro capitão era enforcado e um segundo capitão, em companhia de um Padre, eram abandonados em terra desconhecida onde morreram. A "San António" desertou e regressou a Espanha.

O aparecimento, na política internacional da época do Arquipélago de S. Lázaro, nome dado por Magalhães às futuras Filipinas, veio, como era de prever, perturbar as relações entre Portugal e Espanha.

5 Pag. 90, "Magellan, A Voyage of Life", 1996, por Alan P. Hearn, publicado e editado pelo Embaixador Edmund Libid com introdução do Dr. Cirilo F. Bautista.
6 Pag. 21 e 22 de "Magellan", A Voyage of Life"

Magalhães e os seus patrocinadores sabiam que a viagem contrariava o desejo do rei português e que as Filipinas se encontravam, possívelmente, dentro da área de influência portuguesa definida pelo Tratado luso-espanhol de Tordesilhas-Aérovola de 1494, o acordo que viera dividir o mundo em duas zonas, a do ocidente, que ficarai sob soberania de Espanha e a do oriente sob a soberania de Portugal, contadas as zonas a partir de uma linha traçada a 170 léguas do ocidente das ilhas de Cabo Verde.

E tanto conheciam as implicações da viagem que del Cano evitou sempre que pôde os únicos portos e fortalezaz ocupadas por outros europeus, os portugueses, até San Lúcar, Espanha onde, por fim, conseguiu regressar. Em Santiago de Cabo Verde contaram uma história falsa sobre quem eram e o que faziam e, mais tarde, os portugueses apresaram a "Trinidad", o barco que Magalhães comandara.

Isto serve apenas para sublinhar que as Filipinas vieram realmente colocar um obstáculo nas relações entre Portugal e Espanha, o qual veio a ser resolvido por novas negociações diplómáticas, donde saiu o Tratado de Saragoça, de 22 de Abril de 1529, concluído oito anos depois da morte de Magalhães.Ainda antes da chegada de Magalhães às Filipinas, já os portugueses. idos de Malaca, se haviam instalado em Ternate e Tibore, nas Ilhas Molucas, onde obtinham um rico comércio de especiarias e de madeira.

Um dos capitães de Ternate, António Galvão, deixou até um importante "Tratado dos descobrimentos", em que escreveu a história mundial das descobertas e não apenas as dos portugueses.Dentro da política cautelosa dos Reis portugueses, por aquele Tratado de Saragoça estes preferiram ficar com a indisputada posse das Molucas comprando-as à Coroa espanhola por 350.000 cruzados, uma elevada soma. Quanto às Filipinas manteve-se a pretensão portuguesa.

Já voltaremos a este assunto um pouco mais tarde. Para além desta questão internacional que veio relacionar as Filipinas e Portugal, existem, hoje, em Cebu e Mactan monumentos alusivos à passagem de Magalhães e sua morte às mãos do corajoso chefe Lapu-Lapu e seus homens que não hesitaram em enfrentar os bem armados europeus.

A cidade de Cebu, a capital da ilha do mesmo nome, fica situada no arquipélago das Visaias e a 578Kms ao sul de Manila. Conta com um milhão de habitantes e é a cidade mais antiga das Filipinas. Ali existem a Cruz de Magalhães e o Santo Niño de Cebu. Em 1521 Magalhães colocou uma cruz de madeira no sitio onde os primeiros habitantes foram baptizados. Atribuindo-se-lhe poderes sobrenaturais começaram os devotos a tirar-lhe pedaços até que o Governo da cidade a mandou colocar num envólucro de "tintalo" e este dentro de um monumento redondo, coom o tecto interior pintado, ficando, assim resguardada.

Vê-se, todavia, do exterior. Em frente e muito perto, a meia dúzia de passos, populares, a troco da importância que se quiser dar, acendem velas em honra da Cruz, e, ao mesmo tempo, oram por intençaõ de quem oferece. Na Basílica Minore del Santo Niño pode ver-se a relíquia mais antiga do país, a imagem do Santo Niño. É extraordinariamente popular, vendendo-se imagens por todo o lado desde o Convento de San Agustin, em Manila, até aos centros comerciais.

O Santo Niño foi oferecido por Magalhães à mulher do Sultão Humabon, que reinava em Cebu. Depois de convertida ao catolicismo passou a chamar-se Doña Juana. Decorreram, depois, muitos anos e só no tempo de Miguel Lopez de Legazpi, o Adelantado basco, em 1565, é que voltou a imagem a ser encontrada nas ruinas do palácio de Humabon.A ilha de Mactan, onde Magalhães perdeu o seu último combate, dista apenas da ilha de Cebu cerca de 864 metros, estando ambas ligadas por uma, moderna ponte .

Ilha coralífera, a maior altitute atinge os 50 metros, e tem de superfície perto de 60 quilómetros quadrados. Existe ali uma única cidade, Lapu-Lapu, com 150.000 habitantes. O segundo maior aeroporto das Filipinas, o Aeroporto Internacional de Mactan, tambem está localizado nesta ilha. Dispõe igualmente de várias e magníficas instalações turísticas. No local daquele combate, há um monumento, em bronze, a Lapu-Lapu e, muito próximo, um outro erguido ainda durante o período espanhol, a Magalhães e aos navegadores espanhois.

Perto uma lápide e um outro monumento que tem pintada num mural a luta de Magalhães e de Papu-Lapu. Em 1531, um português chamado Francisco de Castro, antigo Capitão de navio, vindo de Ternate, chegou a Surigao e, apesar de não ser padre, impelido pela fé, começou a pregar e a converter ao catolicismo os habitantes. O chefe de Surigao e duas filhas foram baptizadas, sendo dado ao chefe o nome cristão de António Galvão, o capitão que referimos mais atrás Francisco de Castro, sempre convertendo as populações, chegou até Butuan. 7

Isto significa apenas que as relações entre Malaca, Molucas e Filipinas se processavam como um facto habitual, apesar da rivalidade luso-espanhola continuar. Outro exemplo. A expedição de Ruy Lopez de Lillalobos, seis navios e 200 homens, partiu do México e atingiu Mindanao em 1542. Como se sabe foi Villalobos que designou a ilha de Leite, em honra de Filipe II de Espanha, por Ilhas Filipinas.

Depois de falhar a coloniazação de Mindanao, rumou para as Molucas onde os portugueses o receberam mal pois a presença da armada era contrária ao Tratado de Saragoça (1). Villalobos faleceu em 1516 na ilha de Amboina, Molucas, pertença dos portugueses desde 1511 e teve a singular distinção de morrer confortado por S. Francisco Xavier. Na data de 1538 havia em Amboina 8.200 cristãos distribuidos por sete povoações. 8 Em 1563, oito navios portugueses pesadamente armados e vindos das Molucas, haviam aparecido em frente de Bohol.

Acolhidos com amizade, passados alguns dias, sem prévio aviso, os tripulantes começaram a roubar, matar e capturar os habitantes, prosseguindo assim, ao longo da costa, até à ilha de Limasawa. 9 Não encontrei referência a estes factos em documentação portuguesa, mas sim em espanhola (2). Voltando à rivalidade luso-espanhola. Uma das suas consequência foi o interessante episódio que passo a descrever. 10 Desembarcando em Cebu em Abril de 1565 o "Adelantado" Miguel Lopez de Legazpi evitara o confronto com os portugueses já instalados nas Molucas, como referimos.

7 Pag. 49 e 50, 1º. vol. de "Philipinnes Through the Centuries" de Antonio M.Molina, 1ª edição, 1960 8 Pag. 109 e seguintes do "Trapobana e mais alem...presença de Portugal na Asia" de Benjamim Videira Pires, S.J. Insituto Cultural de Macau, 1995, uma obra de grande importância.9 Pag. 57. "The Philipines Through the Centuries", vol. I, de Antonio M.Molina10 In " A viagem de comercio Macau-Manila nos seculos XVI a XIX, de Benjamim Videira Pires, S.J. edição do Museu Marítmo de Macau, 1994, pag. 7. Aqui está uma obra que deveria ser traduzida para inglês e posta à disposição dos historiadores filipinos e de todos os que se interessam pela História das Filipinas porque constitui uma obra exaustiva sobre o assunto.(1) Ver as cartas que D. Jorge de Castro escreveu em 1543 a Villalobos protestanto pela sua presença na área e publicadas em"Colleccion de documentos inéditos relativos al descobrimento, conquista y organizacion de las antíguas posesiones españolas de ultramar, segundo série, publicada por la Real Academia de la História, tomo nr. 2 I-De las Islas Filipinas, Madrid, 1886". pag. 66 e segs.(2) Fr. Gaspar de San Augustin, Conquista de las islas Philipinas, Madrid, 1968, pág. 249 Philipine Political and Cultural.

Em 1568, o Capitão-mor Gonçalo Pereira, ao comando de dez navios, veio colocar-se em frente do estabelecimento defensivo de Legazpi, então, ainda, feito de "trincheiras de terra batida", cercando-o e propondo-lhe o repatriamento e aos seus homens se se rendessem à boa paz. Legazpi "recusou cortezmente". E Gonçalo Pereira, durante três meses, tentou fazer cair os espanhois pela fome. Mas estes aguentaram e o Capitão-mor regressou às Molucas, para ser assassinado mais tarde.

Em 1570, de novo os portugueses tentaram expulsar os espanhois das Ilhas de São Lázaro. Legazpi prudentemente saiu de Cebu para Panay. Alargou-se o domínio espanhol a Leite, Mindoro e à grandeilha Luzon onde foi Manila proclamada por Legazpi, como capital, em 24 de Junho de 1571, dia de S. João baptista. Ficava situada numa bela posição estratégica, na ampla e bela baía o mesmo nome e junto à foz do Pasing.

A pouca e pouco a realidade do facto, consumado foi-se impondo aos direitos de Portugal definidos nos citados tratados até que uma junta de cosmógrafos decidiu sobre a delimitação das fronteiras das Molucas, atribuindo, por erro, as Filipinas à Coroa Espanhola. 11 O Padre português Gregório Gonçalves, um dos fundadores da futura cidade de Macau, escreveu por 1570 ao Embaixador de Espanha em Lisboa, D.João de Borja, enviando-lhe uma carta-relatório. E nela descreve a Ilha de Luzón, dizendo que é uma "ilha muito grande". com "muitas baías e bons portos".

Além disso acrescenta que é uma ilha muito rica, com muitos mantimentos e produtos (v.g. cera, cobre, mel, tartaruga e muito ouro). Fala, depois, da sua "gente branca" e da boa situação geográfica "entre a China e Japão e o Reino de Bornéu". 12 Em 1580, a Coroa de Portugal, devido à morte do velho Cardeal-Rei Dom Henrique, foi entregue a um dos seus directos sucessores, Filipe II de Espanha (1527-1598), filho da Princesa portuguesa D. Isabel (1503-1539), mulher de Carlos V e neto do já citado Rei Dom Manuel I.

Quem fôr ao Museu do Prado, em Madrid, ali poderá ver o maravilhoso retrato da raínha D.Isabel pintado por Tiziano. Em Portugalç nunca existiu cerimónia da coroação dos Reis mas sim o juramento por estes das leis fundamentais seguido de aclamação pelas três Ordens, Clero, Nobreza e Povo. Para esta cerimónia deslocou-se em Abril de 1581, Filipe II à cidade de Tomar, situada ao norte de Lisboa, e sede da antiga Ordem dos Templários, extinta na Europa, mas transformada, em Portugal, em Ordem de Cristo.

Ainda hoje existe sendo seu Grão-Mestre o Presidente da República portuguesa. Filipe II, que falou português até idade adiantada da juventude, o que chegara a preocupar seu pai, gostava sinceramente de Portugal, passando dois anos em Lisboa, 1581 e 1582. Ora no Tesouro da Sé de Lisboa existe - e pode ser vista pelo público - uma belíssima cruz em ouro, ida das Filipinas, com as armas reais e as armas das Filipinas e que foi oferta do rei espanhol aquela Sé.

Teria sido em alguma daquelas datas? Para o desenvolvimento desta história importa anotar factos ocorridos Cortes de Tomar.
10. A Coroa de Portugal continuaria separada da Coroa de Espanha existindo apenas uma união pessoal em Filipe II; 2º O comércio das Índias e da Guiné só poderia ser exercido pelos portugueses, de acordo com os tratados subscritos por ambos os países; 11 Padre Videira Pires, obra citada e tambem Ambeth R. Ocampo, in "Looking Back" o artigo "We could". " Have been under Portugal", pags 46 e 47, Anvil Publishing. Inc. and Ambeth R.Ocampo 1990, 12 In Revista "Macau", II Serie nr. 62, Junho 97, "A fundação de Macau e os espanois nas Filipinas", de António Batista.

Veremos que as realidades económicas, políticas e religiosas do Extremo Oriente se iriam impor às determinações reais de Filipe II. Neste curioso jogo internacional intervinham: o Império da China, por intermédio do Vice-Rei de Cantão, Macau (Portugal), Manila (Espanha) e Japão. Desde o acordo, obtido pelo Capitão Leonel de Sousa em 1553-54 das autoridades chinesas estas haviam atribuido a Macau o monopólio do comércio com o Japão.

Por outro lado, os jesuitas tinham a sua base em Macau para a missionação da China, Japão e Sudeste Asiático. Sendo assim, os comerciantes e jesuitas portugueses de Macau pretendiam afastar Manila quer do lucrativo comércio com a China e Japão quer na evangelização dos seus povos. A China, por seu lado, opunha-se a qualquer comunicação entre Macau e Manila. 13 Mas à medida que Manila ia crescendo, é evidente que o comércio directo com a China e a missionação daquele Império eram duas fortes ambições que queriam ser postas em prática, tanto mais que era tradicional a vinda a Luzón e outras ilhas de negociantes chineses.

Aparentemente posições inconciliáveis mas que as realidades económicas, políticas e religiosas vieram corrigir e, em certa medida, harmonizar. Mas não sem que os Governadores das Filipinas deixassem de pensar no valor estratégico comercial das Molucas pertencenets à Coroa Portuguesa. Assim, logo em 158, o Governador Roquillo de Peñalosa enviou uma expedição de 1500 espanhóis sob o comando do sobrinho, Juan Ronquillo, para tomare Ternate. Iniciados os combates a vitória parecia sorrir-lhes quando uma epidemia de beri-beri inutilizou 4/5 dos homens.

Voltaram, então, para Manila. 14Em 1589, o Governador Santiago de Vera, apesar de ser de opinião contrária, teve de cumprir as ordens reais e organizar outra expedição contra Ternate sob o comando do Capitão Pedro Sarmiento que levou consigo 300 espanhóis, centenas de soldados e archeiros filipinos e 24 barcos. O Rajá de Bakan e os seus homens juntaram-se, mais tarde, à expedição. Depois de uma fácil vitória naval o cerco de Ternate prolongou-se por meses e, apesar dos sitiados terem saído da fortaleza e sido vencidos, as condições dos expedicionários eram tão más que terminou tudo em novo fracasso. 15

Dentro do contexto descrito, "aos 22 de Janeiro de 1587, Filipe II de Espanha recomendava ao Vice-Rei da Índia portuguesa, D. Duarte de Meneses, que se evitasse o comércio dos espanhóis com a China e as Molucas, bem como em contrapartida, o tráfico dos portugueses de Macau com as Filipinas". 16 Mas o Vice-rei, muito realisticamente, respondeu ao monarca que era impossível impor o cumprimento daquela determinação atenta a distância a que ficava de Goa, capital do Império das Índia.Mais tarde o Vice-rei queixava-se a Madrid de que uma nau espanhola fora a Macau, carregada de prata do México.

Para estabelecer, ao menos, um certo equlíbrio o Vice-rei pede autorização ao rei para que os navios de Macau possam negociar as suas mercadorias no México. Aparentemente não chegou qualquer resposta mas é evidente que a proposta ia contra a política espanhola. De Macau seguiram para Manila principalmente a loiça chinesa e sedas e, de Manila, vinha arroz para a população e, mediante o "galeon" de Acapulco, a moeda em prata, a pataca, ainda hoje o nome da moeda que circula em Macau.

13. Pag.225 "Trapobana e mais alem..." do Padre Benjamim Videira Pires, S.J. 14. Pag.82, 1º vol. de "The Philippines Through the Centuries", de Antonio M.Molina, 1ª edição, 1960. 15. Pag. 91, 1º vol. de "The Philippines Through the Centuries", de Antonio M. Molina, 1ª edição, 1960. 16. Pag. 11 da obra citada " A viagem de comércio Macau-Manila".

CAP. II

SECULO XVII

No jogo internacional vieram, contudo, intervir outros factores, à medida que o tempo corria. Potências com interesses mundiais eram apenas Espanha e Portugal. Com a união pessoal das duas Coroas os inimigos de Espanha passaram a ser também os de Portugal. Filipe II tentara dominar a Inglaterra - com uma larga participação portuguesa de excelentes navios - mas falhara. E o episódio, em 1588, da "Invencível Armada". Desde o sec. XIV que mantinhamos uma aliança com a Inglaterra mas, agora, estavamos do lado contrário, o que ia contra a nossa tradição diplomática.

O grande inimigo, contudo, que o Império português teve de enfrentar veio da Holanda. Durante cerca de 71 anos (1598-1669) portugueses e holadeses lutaram desde o Brasil, Angola, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Índia, Ceilão, Malaca, Macau, Molucas e Timor. Pode ser considerada uma 1º Guerra Mundial embora protagonizada apenas por três potêncais pois deveria incluir a Espanha. Portugal manteve o imenso Brasil, Angola, Índia mas perdeu numerosas posições no Sudeste Asiático.

Macau que há largas dezenas de anos era um simples entreposto de comércio, não fortificado, teve de erguer defesas contra os ataques holandeses, ao longo da Praia Grande, no Porto interior e nas colinas mais elevadas da cidade. Com a excepção do forte do Bomparto, situado naquele primeiro local, as outras fortalezas estavam ainda em construção quando os holandeses atacaram em 24 de Junho de 1622. Mas sofreram uma pesada derrota às mãos dos portugueses, comandados por Lopo Sarmento de Carvalho, perdendo 330 homens, mais 500 espingardas, 1 canhão e um navio de guerra.

A ameaça, contudo, permaneceu por muitas mais dezenas de anos.Enquanto Portugal e Espanha estiveram unidos pela mesma Coroa - o que sucedeu até 1640 quando Portugal retomou a sua independência com as Casa de Bragança, seguida de 28 anos de luta militar e diplomática com a Espanha até à paz final assinada - em 1668, - as Filipinas e Macau colaboraram mútuamente "nos campos militar e político" 17 contra os ataques da Holanda e, mais tarde, da Grão Bretanha. Por exemplo, Diogo Vaz `Bávaro, em 1621, foi a Manila e adquiriu, "por meio de sua indústrias" 6 peças de artilharia que levou para Macau, sendo colocadas nas novas fortificações.

No campo comercial, as determinações reaos dos Filipes "reforçarem a posição portuguesa que fundaram, em 1606, uma instituição lusitana característica, uma Misericórdia, sucursal da de Lisboa. Misericórdia era um hospital destinado a socorrer doentes e pobres. As primeiras haviam sido lançadas pela Raiha D. Leonor no século XV.

17 Obra citada Padre Videira Pires que serve de base para os séculos XVII e XVIII, por conter abundante documentação sobre estes períodos.

Como escrevemos mais acima as leis e determinações eram uma coisa, a realidade económica outra bem diferente. Basta ver que de Macau foram a Manila "em 1604, cinco navios, 1605, dois, 1606, um com "bordados do Japão", 1612, sete com mercadorias e escravos, e 1620, cinco navios" 17 . E " Lourenço de Liz Velho comunicou, em 1621, que o comércio de Macau com Manila trazia aquela cidade portuguesa o rendimento anual de 60.000 cruzados em frete.

É claro que um tal estado de coisas iria conduzir lógicamente à ideia que aquele comércio devia ser legalizado mas, de acordo com os comerciantes de Macau, com um sentido único irem a Manila e fazerem lucros sim mas que os espanóis não viessem à China "porque como trazem cópia de dinheiro (em prata e oiro), logo se altera o preço das fazendas (em Cantão e Macau)". Continuando-se com a mesma orientação " em 17 de Abril de 1624, o Vice-Rei de Goa e o seu Conselho rejeitaram uma petição do Senado de Macau para que as viagens de Manila fossem oficialmente sancionadas e decidiram que a proibição existente se devia cumprir rigorosamente.

O Governador e comerciantes de Macau não prestaram atenção a esta decisão e o comércio com Manila foi desenvolvido pelo novo Governador da Cidade do Nome de Deus até atingir um grau sem precedentes. Em 1628, a viagem de Manila rendeu a Macau 40 mil xerafins, pagando-se a maior parte das dívidas..."Em 1626, o novo Governador das Filipinas, Juan Niño de Tábora chegou a Manila com novas tropas e algum dinheiro. Mas a situação financeira era séria porque o rendimento público ascendia a 150.000 pesos e as despesas obrigatórias a 550.000.

Primeiro solicitou ao Vice-rei do México que lhe enviasse o dinheiro necessário. segundo, pediu para ser substituído caso não viesse auxílio. O Governo endividado, as tropas sem paga durante meses, sem solução à vista, os conselheiros de Filipe IV proposeram que se abandonassem as Filipinas ou que fossem trocadas pelo Brasil, pertença da Coroa portuguesa. Mas Filipe IV recusou porque aos seus antepassados havia sido confiada a missão da conversão ao catolicismo da população filipina e ele não queria falhar neta missão. 18 No começo de 1637 o Governador das Filipinas, Hurtado de Corcuera, dirigiu uma expedição contra o Sultão Kudarat de Mindanao.

É curioso que, ao chegar ali, o seu mais valioso conselheiro militar foi o Padre português, Agostinho de São Pedro que, devido às numerosas lutas que travara com o Sultão ganhara o alcunha de "Padre Capitão"... Contradizendo os factos da real vida económica, Filipe IV, de Espanha, em 1639, proibiu, por intermédio do Vice-Rei português de Goa, o comércio de Macau com Manila. E porquê? Para evitar que Manila se esvaziasse da prata vinda do México em troca das mercadorias chinesas - e outras, por exemplo magníficas peças de artilharia fabricadas em Macau 19 por Manuel Tavares Bocarro - que os comerciantes daquela cidade vendiam aos espanhóis da Filipinas.

E o Governador Hurtado de Corcuera até levou aparentemente a sério a ordem real: "Não permitirei aos portugueses que venham a estas ilhas, para que se não quebre o comércio (indirecto) dos chineses. Obedecerei a este decreto pontualmente, conforme o seu teor..." 20.

17 Obra citada do Padre Videira Pires. 18 Pág. 130, 1º vol. de " The Philippines Through the Countries", de Antonio M.Molina 1ª edição, 1960. 19 Duas delas encontram-se no Museu de Port Elizabeth, África do Sul, uma em perfeito estado de conservação, como pude observar em 1996. 20 Obra citada do Padre Videira Pires.

Foi este mesmo Governador das Filipinas que soube da revolução portuguesa contra Filipe IV em Dezembro de 1640 e do pronto estado de guerra entre Portugal e Espanha. Espanha naquele momento, também tentava dominar a Catalunha igualmente em revolta contra Madrid e a política centralizadora do Conde-Duque de Olivares (a). Certo é que os poucos portugueses que viviam em Manila correram pelas ruas da cidade aclamando o Duqe de Bragança como D. João IV de Portugal.

Hurtado de Cocuera mandou chamar os três Procuradores de Macau e obrigou-os a assinar um auto de submissão daquela cidade à Coroa espanhola. Mas cometeu o erro de enviar os três Procuradores a Macau que logo explicaram ao Governador Português, D. Sebastião Lobo da Silveira, a razão pela qual haviam assinado aquele auto - o uso da coacção. Claro que ao longo dos anos, muitos mapas onde se viam as Filipinas foram sendo desenhados pelos cartógrafos portugueses.

Mas gostaria de chamar a atenção para a magnifica carta aqui incluída, anónima, de cerca de 1640 e que se conserva no Palácio dos Duques de Beaganças em Vila Viçosa. A guerra de Portugal com a Espanha durou, como dissemos, 28 anos e, ao mesmo tempo, os holandeses continuaram a guerriar os dois Estados peninsulares. Malaca caiu 1641, o que levou os portugueses daquela cidade a estabelecerem-se em Macassar. Em 1651, havia 3.000 católicos nesta cidade. Devido ao estado de guerra entre Portugal e Espanha, Macau serviu-se de Macassar para continuar o comércio indirectamente com Manila.

E, assim, todos os anos Manila recebia cinco navios mandados de Macassar. Só depois de 1668 e da paz firmada com a Espanha é que se retomou o comércio directo de Macau com Manila. Em 1672 um navio Macaense aportou a Manila, seguindo-se outros nos anos sucessivos. Por exemplo, em 25 de Novembro de 1695, um barco de Manila, comadado pelo capitão D. António de Bozarte, que rendeu de direitos o pagamento de mil pesos, entrou no porto de Macau. " A Câmara aceitou o dinheiro, acrescentando que a prata embarcada pagaria o mesmo que a dos barcos portuguese, isto é 2%.Este comércio da prata, escrevia-se na época, "é a coluna que sustenta Macau".

Fechado o tráfico com o Japão "só nos resta o porto de Manila, que nos impede de irmos a ele com o nome de Portugueses, mas pode-se ir lá debaixo de outro pretexto". Diriam aos Espanhóis que iam da China... Outro exemplo. Em 1696 o Senado de Macau "decide enviar a Manila, em negócio, a nau do capitão Bernardo da Silva, exigindo-lhe que não traga missionários a bordo para China, como ordenara o Vice-rei". Em 1698, o Governador-Geral das Filipinas, Fausto Cruzat y Gôngora pediu auorização a Macau para que fosse enviado um navio de Manila se modificassem mais favorávelmente o pagamento dos direitos com o que o Senado concordou.

(a) Um escritor célebre português, D.- Francisco Manuiel de Melo, não só tomou parte nesta guerra como escreveu "História de los movimientos y separacion de Cataluña"


CAP. III

SÉCULO XVIII

Em 4 de Abril de 1705 chegou a Macau vindo de Manila o legado Pontíficio, Charles Thomas Maillard de Tournon que, nesse mesmo ano, entrou na Corte do Imperador manchu K´ang Hsi. 24 O próprio Imperador escreveu a seu respeito: "Era uma pessoa com preoconceitos e em quem se não podia confiar, misturando o direito com o torto". A sua missão falhou, deixando o Imperador ofendido e desconfiado sobre os objectivos do Papa que, segundo de Tournon, queria ter uma "Superior" em Beijing que supervisionasse a actividade dos religiosos.

Cinco anos depois, 8 de Junho de 1710, de Tournon falecia, nesta cidade de Macau. (1) Ainda no mesmo Imperador, em 1717, foi "transmitida pessoalmente pelo Vice-rei de Cantão" ao Senado de Macau uma ordem onde se dizia que Macau podia comerciar com as 5 províncias costeiras da China e mares de leste mas não com os "Mares do Sul, Batávia (actual Jacarta) e Manila e mais lugares"". 25 Mas o jesuita português Padre Tomás Pereira que, vivia na Corte de K´ang-Hsi - e a quem este se refere nos seus escritos - conseguiu obter que a lei não se aplicasse a Macau e Macau continuou durante mais quatro anos com o "monopólio do comércio externo da China, sobretudo com Batávia". 26

Macau, Solor e Timor dependiam do Vice-rei português de Goa que, de vez enquando, emitia ordens para a Cidade do Nome de Deus. Assim, em 14 de Maio de 1722, o Vice-rei "autoriza Cosme Serrão a realizar a viagem de Manila, directamente a Cantão, sem passar por Macau, recomendando que não seja impedido, antes auxiliado pelas autoridades desta cidade. "É claro que o Senado pretendeu, ao contrário do que determinava o Vice-rei, dissuadir Cosme Serrão de ir "directamente a Cantão", passando por cima de Macau.

Mas não o conseguiu.27 É curiosos apontar que o pataxo macaense "Jesdus, Maria, José" 28 chegou a Macau em 1 de Novembro de 1723, levando a bordo D. Frei Sbastian de Foronda, eleito Bispo auxiliar de Cebu e que ia sagrar-se aquela cidade. A Sala Capitular de Manila recomendou ao Senado macaense D.Frei Sebastian. Macau, como temos podido avaliar, dependia essencialmente do comércio marítimo.

Sem agricultura ou indústria, a função de intermediário fazia a sua riqueza. Ora entre 1735 e 1754 perdeu, "sobretudo em naufrágios, mais de onze navios" 29. A situação económica era muito séria. A população ascendia a 5.212 cristãos e 8.000 chineses e, dos peimeiros, apenas eram portugueses nascidos no reino 90. Os navios dos armadores macaenses faziam as carreiras de Manila, Timor, Batávia, Malaca, Madrasta, Calecute, Goa e Surrare.

O Crescimento do poder holandês e do inglês na vasta área do Sudeste Asiática veio impulsionar D.João V, a proibir, em 1746, que algum estrangeiro se estabelecesse e pudesse comerciar em Macau, repetindo, de resto, disposições antigas.

24 Pag. 75 e seguintes de "Emperador of China - Self Portrait of K´ang-Hsi" por Jonathan D. Spence, 1977. 25 Pag. 45, obra Padre Vieira. 26. Idem pag. 46. 27 Idem pag. 48. 28 Idem pag. 49. 29 Idem pag.60

Mas abria uma excepção barcos vindos de Manila podiam comerciar livremente e, ainda por cima, pagariam menos direitos, 1,5%, enquanto que os portugueses e habitantes de Macau teriam de pagar 2%. Seria isto devido à maior aproximação de Portugal e Espanha pois a filha de D.João V, a ilustre e culta D. Bárnara de Bragança havia casado com o Rei espanhol Fernando VI e a irmã deste, Marianina com o futuro D.José I de Portugal. Em 1750, tentando reforçar a posição portuguesa proibia-se a venda de navios macaenses a estrangeiros.

Quando eclodiu a Guerra dos Sete Anos na Europa e os Reis Bourbons assinaram o Pacto de Família, em 1761, os ingleses não perderam a oportunidade de atacar as Filipinas e de ocupar manila em Outubro de 1762. Em 16 de Dezembro deste ano, o Senando de Macau avisa o Vice-Rei português de Goa da queda de Manila e o Vice-rei ordena que Macau "tenha as fortalezas apetrechadas e guarnecidas", 30 para a eventualidade de um ataque britânico.

Um episódio um tanto dramático teve também lugar em 1762. Os jesuítas haviam sido expulsos de Portugal, em 1759, por ordem do Marquês de Pombal. A Ordem tratou de pôr a salvo os seus arquivos. E, assim, em 1761, no barco do capitão espanhol D. Antonio Pacheco, o jesuíta português João Álvares meteu em quatro caixas chinesas, forradas de papel vermelho da China, nada mais nada menos que o arquivo da Companhia de Jesus no Japão desde o ano de 1549 a 1671 e endereçou-a ao Padre Ignacio Malaga, Procurador da Província dos Jesuítas nas Filipinas.

Depois de várias aventuras, uma parte da documentação, 62 cadernos originais, foram parar à real Academia de História de Madrid onde ainda hoje se encontram. Instalados com segurança em Bengala, os ingleses lançaram um intenso comércio com Macau e as Filipinas. 31 Neste fim do século XVIII e princípios do XIX "havia, em Macau, vinte e quatro barcos certos (dois dos quais brigues de guerra) e provávelmente mais seis.

Comerciavam principalmente com o Sião, Lisboa e Brasil". está hoje de moda e e´uma realidade, ao mesmo tempo, falar-se da globalização da economia mas, como vemos, Portugal já a pusera em prática porque compreendera que a troca de bens e de capitais necessitam de ter uma dimensão mundial. O comércio do célebre "galeon" da viagem a Manila - Acapulco constituiu um monopólio da Coroa espanhola desde 1565 a 1785 altura em que foi autorizado a fundação da real Companhia Filipina. parecia que a actividade comercial se iria expandir mas a independência das colónias espanholas da América, designadamente do México, vieram põr termo a uma tradição multisecular. Em 1815 chegou a Manila o último "galeon".

30 Pág. 65, obra citada padre Videira Pires. 31 Idem, pág. 85.


CAP.IV


SÉCULO XIX

O Dr. José Rizal deixou Manila, a bordo do vapor "Melbourne", em primeira classe, em direcção a Hong Kong, no dia 18 de Outubro de 1891. Um mês e dois dias de navegação e chegou aquela cidade. Augusto Coates, falecido neste ano de 16 de Mãrço de 1997 nos arredores de Lisboa, Sintra, para onde se retirara depois de muitos anos vividos pricipalmente nos antigos domínios britânicos do extremo Oriente, incluindo Honk Kong onde havia sido, de 1949 a 1957, funcionário do British Colonial Service, descreveu como se estruturava a sociedade de Hong Kong no tempo em que o Dr. José Rizal ali chegou pela segunda vez em 1891.

E é curioso que esta estrutura coincidia com os níveis da montanha: quase junto ao mar os chineses, a meio um variado conjunto de "arménios", parses, judeus, euroasiáticos, portugueses e indianos". 32 Acima dos 450 pés únicamente os britânicos, separados socila e políticamente da restante população por um sólido racismo. Os portugueses a que se refere Coates eram os provenientes de Macau e descendentes daqueles que se haviam estabelecido ali, em Timor, em Malaca ou na Índia portuguesa. "For the Filipino exile in Honk-Kong the Portugueses level was their natural home.

There were language affinities. In Protestant Hong-Kong they were Catholics. Like the Hong-Kong Portuguese, the Filipinos, though in many ways extraordinary Europeans, were Asians. The Portuguese were those whom they naturaly moved in sympathy. It was a good land to be in, too - clean, healthy, with spacious homes and pleasant neighbours", 33 O mais importante membro desta comunidade portuguesa era Delfino Noronha.

Vivia em Zetland Street e a sua casa consituia um ponto de encontro para o grupo que referimos. Era impressor e a sua firma, Noronha & Co., publicava o Hong-Kong Government Gazette. " A sua companhia era provávelmente a melhor da colónia e ele mesmo uma conhecida figura do Jockey Club e a principal força na resolução de todos os assuntos que preocupavam os portugueses. Mas se reunia à sua volta os intelectuais não era um deles. Pertencia, antes, ao mundo social e desportivo". 34

32 "Rizal in Honk-Kong, por Austin Coates, publicado a págs. 287 dos "Proceedings on the International Congress on Rizal", obra citada. 33 Pag 287, obra citada. 34 Pág. 288, obra citada.

Poucos dias depois da chegada o Dr. José Rizal conheceu Delfino Noronha e, por seu intermédio, põde alugar uma casa em Rednaxela Terrace. V~e-se que o nome é o de Alexandre escrito ao contrário. O Dr. Rizal alugou-a à família Basto, portugueses de Macau. Algumas semanas mais e conseguiu um local de trabalho vantajosamente situado no coração da cidade 35 nr. 2, Duddell Street, a dois passos da Queen´s Road Central, a mais importante artéria da cidade. A seguir instalou-se no nr. 5 da Aguilar Street.

O encontro com Delfino Noronha ficou a dever-se a José Maria Basa, exilado filipino e pessoa bem colocada na sociedade. As afinidades entre Delfino Noronha e o Dr. José Rizal eram poucas e seguramente não de carácter intelectual. Todavia, o Dr. Rizal frequentou com assiduidade a sua casa. Ali conheceu um médico, o Dr. Lourenço Maria Marques Pereira, filho de portugueses e nascido em Macau, na freguesia de Santo António em 7 de Setembro de 1852 36.

Tinha este quase trinta e nove anos de idade e descendia de uma família importante. Seu pai, o Comendador Lourenço Marques havia comprado, em Macau, a casa e os belos jardins onde vivia o agente principal na China da inglesa "East India Company. Nos jardins existia a chamada gruta de camões, onde o maior poeta português Luis Vaz de Camões, teria escrita uma parte de "Os Lusiadas" em 1557.

O Comendador Lourenço Marques iniciou o culto de Camões sendo, hoje, aquele jardim uma atracção turística muito popular devido à sua beleza e à paisagem que de lá se pode avistar porque fica no cimo de uma colina. O segundo Governador de Hong-Kong, Sir Jhon Davis, escreveu para o Comendador Marques um poema em latim em honra de Camões e o quarto Governador, Sir John Bowring, um soneto "Gema da Terra do oriente".

Podem hoje ser lidos naquele local inscritos na pedra. É um lugar tarnquilo onde os velhos chineses conversam e jogam e numerosas crianças brincam com enorme alegria. Por vezes, vem alguém com uma gaiola com passarinhos para este disfrutarem da paisagem verde e da aragem fresca... O Comendador Marques recebia, em sua casa, todas as personalidades importantes, incluindo o Duque de Edimburg, um dos filhos da Rainha Victoria. 37

Seu filho Lourenço, depois de estudar no Seminário de S. José, em Macau, foi mandado para Lisboa para o Colégio dos Jesuítas, em Campolide e de lá para o King and Queen College de Dublin, onde se formou em Medecina em 1877, aos 25 anso. Em 1887 estava, de novo em Macau e logo partiu para Hong-Kong onde passou a exercer Medicina. Espírito inquieto e investigador, havia publicado em Hong-Kong, nove anos antes da chegada pela segunda vez do Dr. Rizal " A realidade do darwinismo", e, dois anos antes, "Defesa do darwinismo: refutação de um artigo no jornal "Catholic Register".

Escreveu também sobre Luiz de Camões. Vê-se que, ao defender as ideias de Darwin se colocava contra a Igreja Católica da altura. Era republicano mas naturalizou-se inglês, uma aparente contradição. Coleccionador, enviara um conjunto de objectos do extremo Oriente para a Sociedade de Geografia de Lisboa, da qual era sócio, e que passaram a constituir a "Sala Lourenço Marques". No seu testamento deixou uma enorme biblioteca ao Clube de Macau. Como vários dos seus irmãos permaneceu solteiro.

Personalidade original, eis como Austin Coates o apreciou: "Essencialmente um homem de ideias, ao longo da sua vida procurou sempre algo de prátcio para põr em execução. Mas faze-lo nos relatórios médicos na prisão, como por vezes, o intentou não era a forma ideal de o conseguir. Funcionários britânicos que dele tinham algum conhecimento pensavam simplesmente que era um pouco excêntrico. E é seguro que nunca nenhum deles lhe prestou uma atenção séria". 38 O dr. Marques era vizinho do Dr. Rizal em Rednaxela Terrace.

Pouco tempo antes da chegada deste último a Hong-Kong o Dr. Marques havia proposto, de forma pouco burocrática e inapropriada, que os presos de delito comum fossem deportados para o norte da ilha de Bornéu e ali se procedesse à sua regeneração.O Dr. Dr. José Rizal viera da Europa com a ideia de inciar uma colonização de gente livre do domínio espanhol no norte de Bornéu. Aqui está um ponto de contacto entre estes dois homens.

Outros existiam sem dúvida ambos médicos e investigadores, coleccionadores e grandes linguistas ( o Dr. Marques falava e escrevia diversos idiomas), viajados e cosmopolitas, o Dr. Rizal preocupado com a situação política da sua Pátria, o Dr. Marques republicano e radical. Que pena não se terem registado as conversas dos dois!

Parece-me seguro, no entanto, que abordaram a teoria darwinista da evolução das espécies porque o interesse do Dr. Rizal pela Natureza era muito semelhante ao do Dr. Marques Pereira. É curioso notar que o jovem Sun Yat-Sen era aluno do Dr. Marques Mendes na cadeira de jurisprudência médica no College of Medicine de Hong-Kong, a futura Universidade. Tem-se especulado sobre a possinilidade do Dr. Rizal e de Sun Yat-Sen se terem encontrado.

Não há prova disso "mas foi por pouco". Sun Yat-sen, já médico e casado, refugiou-se no território português de Macau onde viveu alguns anos. Ali se pode ver a sua casa, estranhamente deenhada em estilo árabe, hoje transformada em Museu. O Dr. Rizal registou por escrito uma visita que fez à Victoria Gaol de Hong-Kong na companhia do Dr. Marques 39. Era o dia 2 de Março de 1892. Às 9h30 partiu a pé com o Dr. Marques até à prisão e, depois deste ser saudado militarmente pelos guardas e empregados, passaram junto ao pátio interior onde se encontravam "numerosos polícias chineses e cipaios.

Os chineses estavam presos pelos seus rabichos; vimos um em farrapos preso por ladrão". "Um deles anunciou a nossa visita gritando Isang (Doutor). Os presos chieneses saudavam e apresentavam-se para inspecção levantando ambas as mãos até à altura da testa com as palmas viradas para fora..." No pátio avistámos uma multidão de presos - anémicos, pálidos, sujos". São quatro páginas pungentes de sofrimento humano, sobre o crime, a miséria, a prisão, a doença, a velhice, a punição. Páginas que todos deveriam ler e meditar, especialmente, permito-me até escrever, os estudantes de Direito.

Em Maio de 1892, o Dr. Rizal resolveu regressar às Filipinas. Em 20 de Junho, escreveu duas cartas, que selou e escreveu em cada envelope "para serem abertas depois da minha morte" entregando-as ao Dr. Marques.

38 Pag. 292 "Rizal in Hong-Kong", por Austin Coates. 39 Pag. 145 dos "Miscellanous Writings of the Dr. José Riazal, vol. II, Manila national Heroes Comission 1964.

Notou Austin Coates que seria talvez mais natural que as tivesse entregues a José Maria Basa. Não tê-lo feito "mostra o grau de compreensão que se formara entre os dois homens no curto período de tempo em que se conheceram" . 40 Em 21 de Junho o Dr. Rizal e sua irmã Lúcia partiam para Manila. menos de um m~es depois da sua chegada, o Dr. Rizal era exilado para Dapitan, na ilha de Mindanao, onde iria permanecer quatro anos. Em meados de 1895, o Dr. Marques reformou-se e regressou à sua Macau, onde continou a exercer medicina mas recusando-se a receber pagamento fosse de quem fosse.

O Dr. Rizal iria cumprir o seu trágico e glorioso destino, fuzilado em 30 de Dezembro de 1896 no actual Parque Rizal de Manila. No "Renacimeineto Filipino", de 28 de Dezembro de 1910, um amigo intimo do Dr. Rizal, ao falar com o Dr. Marques, obteve dele a seguinte opinião: "Coloco Rizal entre os homens de talento extraordinário.

A sua Pátria pode orgular-se em tê-lo por filho. Ponha o nome de Rizal no álbum dos grandes homens e o álbum ficará enriquicido com mais uma figura invulgar. Considero Rizal o Redentor da Raça Filipina e o seu fuzilamento foi um crime sem nome que deixa uma nódoa indlével na História de Espanha". 41 Era natural que o Dr. marques soubesse, através da imprensa ou através dos seus amigos de Hong-Kong, do que sucedera ao Dr. Rizal.

O Dr. Lourenço Marques veio a falecer em Macau, pouco mais de cinco anos passados, em 5 de Março de 1911, a República proclamada em Portugal cerca de cinco meses antes e o Povo Filipino, após uma difícil e sangrenta luta pela independência, agora dominado pelos Estados Unidos na pessoa do Governador-Geral, William Cameron Forbes.

40 Pag. 292, obra citada. Pag. 167 de "Rizal ante los ojos de sus conteporaneos", tomo XIII, livro primeiro, Edição do Centenário, Manila, 1961.


CAP.V

SÉCULO XX

As relações Macau-Manila e Portugal e Portugal-Filipinas afrouxaram e esbaterem-se nos primeiros vinte anos do século. Tanto Portugal como as filipinas atravessaram períodos difíceis. Todavia, em 1920, Portugal tinha um Cônsul em Manila, o Senhor Daniel R. Williams, referido no Anuário Diplomático e Consular daquele ano como ausente e estando a geir o posto o Senhor J.W. Ferrier.

Em llo-llo havia um Vice-Cônsul, não preenchido o lugar, contudo. Em 1921, ascendera a Cônsul o Senhor Ferrier que permaneceu no cargo até 1935. Em 1936 já era Cônsul em Manila, Angelo da Costa Carvalho, estando vago o posto em 1938. Dois anos depois, em 1940, exercia as funções de VIce-Cônsul em Manila Carlos Maria da Luz Nunes, que aqui permaneceria durante vários anos. Nascera na antiga e histórica freguesia da Sé de Macau em 13 de de Agosto de 1895.

Mas já residia em Manila antes de 1940 porque, em 15 de Fevereiro de 1938, casou-se na bela e antiga Igreja Malate com uma Senhora igualmente natural de Macau, D. Maria da Pureza Gomes d´Eça. Passou em Manila todo p difícil tempo de guerra. Em 4 de Julho de 1946, as Filipinas cumpriram o sonho dos seus maiores heróis e retomavam a independência completa sob Presidente Manuel A. Roxas apoiado pelo reconhecimento internacional de numerosos países.

E é curioso que tanto as Filipinas como Portugal enfrentavam, de novo, um período difícil, consequência da 2ª Guerra Mundial. Portugal conseguira permanecer neutro, embora não completamente, pois que Timor fora invadido e ocupado pelos japoneses mas os efeitos económicos faziam-se sentir com intensidade e eram pouco fáceis de ultrapassar. Portugal nomeou Humberto Alves Morgado , diplomata de carreira, como seu Cônsul em Manila enquanto geria também, interinamente o Consulado em Banguecoque.

Permaneceu em Manila de 16 de Maio de 1947 a Fevereiro de 1949. Continuava como Vice-Cônsul Carlos Maria da Luz Nunes e a direcção das instalações era 1335 Oregon, Paco. Humberto Morgado assistiu ao termo da presidência de Manuel A. Roxas, inesperadamente de Elpidio Quirino. Em 30 de Dezembro de 1961, Diosdado Macapagal assumia as funções de 5º. Presidente da República. O seu primeiro Ministro dos Negócios Estrangeiros foi o Embaixador Salvador P.Lopez, (1963-64), nomeado em 1965 Representante Permanente das Filipinas na Nações Unidas, onde permaneceu até 1969.

Sucedeu-lhe o Embaixador Mauro Mendez na pasta dos Estrangeiros. Em Portugal governava o Prof. António de Oliveira Salazar, sendo Ministro dos Negócios Estrangeiros o Embaixador Franco Nogueira. Tanto Salazar com Macapagal eram Professores de Direito, o primeiro especialista em Finanças e Direito Fiscal, o segundo em Direito Civil. Por essa época o primeiro Embaixador português residente em Manila foi nomeado em 10 de Outubro de 1962, tendo apresentado as suas credenciais ao Presidente Macapagal no Palácio de Malacañang em 21 de Junho de 1963.

Chamava-se Fernando Manuel Ferreira Lobão de Carvalho, nascera no Porto em 1917 e formara-se em Direito na Universidade de Coimbra. Tinha cerca de 46 anos. Permaneceu em Manila durante perto de dois anos, até 19 de Março de 1965. O presidente Macapagal decidiu, então, abrir uma Embaixada em Lisboa que ficou localizada na central e importante Avenida da Liberdade e cujos trabalhos, iniciais, foram confiados ao futuro Embaixador Garrido.

O Presidente Macapagal escolhera o Embaixador Eduardo L. Rozal diplomata de carreira, antigo Ministro em Colombo e que estava a desempenhar as funções de Chefe de Protocolo, mas o Presidente que lhe sucedeu, Ferdinando E. Marcos, nomeou um outro Embaixador, a Senhora Estela Romualdez Sulit, parente de sua mulher, Imelda. O segundo Embaixador português residente foi o Dr. António Luis de Magalhães de Abreu Novais Machado, igualmente licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra.

Apresentou credenciais ao Presidente Macapagal em 8 de Junho de 1965. Poucos meses depois, foi eleito como referimos o 6º. Presidente das Filipinas Ferdinando E. Marcos, tendo prestado juramento em 30 de Dezembro de 1965. Tomou posse simultânea o Vice-Presidente, Senador Fernando Lopez. Nesta cerimónia em representação do Presidente português, Almirante Américo Tomás, compareceu o Embaixador Novais Machado acompanhado do Cônsul Carlos Maria da Luz Nunes.

Ao deixar as suas funções, o anterior Presidente Macapagal empreendeu uma viagem à Europa, acompanhado de sua família. Quando Presdiente visitara oficialmente Espanha de 30 de Junho a 6 de Julho de 1962. Agora, como cidadão particular foi, de novo, a Espanha e também a Lisboa. Em Portugal foi recebido por Salazar, pelo Presidente da República, Américo Tomás e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira que lhe ofereceu um almoço, certamente no Palácio das Necessidades, sede do Ministério. Num dos livros que escreveu, "A Stone For the Edifice" - Memoirs of a Presidente", Macapagam faz breves referências a Salazar.

É uma obra altamente interessante pelo período histórico que descreve e pela relevante intervenção do Presidente Macapagal quer internamente quer na cena internacional. Aquele que havia sido o primeiro Embaixador português a residir em Manila, Lobão de Carvalho, fora entretanto nomeado Adjunto do Director-Geral dos Negócios Económicos e Consulares. Tendo-se deslocado a Manila aqui veio a falecer subitamente.

Em 11 de Fevereiro de 1967, pelo Embaixador Novais foi mandada rezar uma missa de requiem, tendo comparecido, em representação do Governo das Filipinas, o Subsecretário dos Negócios Estrangeiros, Manuel Collantes, membros do Corpo Diplomátic, a ""quase totalidade da comunidade portuguesa e muitos amigos do antigo Embaixador". Foi celebrante o Núncio Apostólico, Carlos Martini, a quem sucederia, nesse mesmo ano de 1967 Carmine Rocco. Este último estaria seis anos nas Filipinas, até 1973.

O Vice-Presidente Fernando Lopez, em meados de 1967, realizou uma visita oficial a Espanha e Portugal, tendo regressado a Manila em 5 de Agosto. Em 19 do mesmo mês, o Embaixador Novais machado, depois de três anos e cinco meses, foi trasferido como Embaixador para Montevideu, Urugai. Sucedeu-lhe, como terceiro Embaixador português, Júlio Menino Salcedas que permaneceu até 27 de Setembro de 1972. Em 30 de Dezembro de 1969, efectuaram o juramento e assumiram funções o Presidente reeleito, Ferdinando E. Marcos, e o Vice-Presidente Fernando Lopez. Em 27 de Novembro de 1970 as Filipinas receberam a visita do Papa Paulo VI.

Em 1 de Junho de 1971, reuniu-se uma Convenção Cosntitucional no Fiesta Pavilion do Manila Hotel, tendo sido aberta pelo Presidente Marcos. Todavia, vários delegados sairam como protesto contra a Administração do Presidente. 42 Em 21 de Agosto, ocorreu o Massacre da Praça Miranda. Em 23 de Setembro, o próprio Presidente anunciou na rádio e na televisão a proclamação da lei marcial. De novo, havia um paralelo na situação dos dois países quanto às dificuldades que viviam pois em Portugal o regime político criado e mantido por Salazar e prolongado pelo Prof. Marcelo Caetano aproximava-se do seu fim com consequêncais imprevisíveis.

Em 27 de Setembro de 1972, o quarto Embaixador português residente tomava posse, Frederico José de Sousa Teixeira de Sampaio. De Março a Julho de 1974, Francisco Pessanha de Quevedo Crespo exerceu as funções de Encarregado de Negócios a.i. . Ora em 25 de Abril de 1974, as Forças Armadas derrubam, em Portugal, o velho regime, tendo como objectivos essenciais: 1º. democratizar o País; 2º. desenvolvê-lo economicamente; 3º. descolonizar. Em 1975, cinco novos países haviam ascendido à independência e tomavam lugar nas Nações Unidas: Angola, Moçambique, S. Tomé e Princípe, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Todos eles, juntamente com o Brasil e Portugal fazem parte da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (C.P.L.P.) fundada em Julho de 1996. Permaneceram por descolonizar Macau e Timor. Quanto a Macau, um processo de negociações com as Ãutoridades chinesas conduziu à assinatura da Declaração Conjunta de 15 de Abril de 1987 que define o seu estatuto: território chinês sob administração portuguesa até 20 de Dezembro de 1999.

Quanto a Timor, cuja ocupação militar pela Indonésia não foi aceite pelas Nações Unidas, prosseguem as conversações luso-indonésias sob a égide do actual Secretário-Geral das Nações Unidas, Senhor Kofi Annan, que nomeou como seu representante pessoal para o assunto o Embaixador do Paquistão, Senhor Jamsheed Marker. O Embaixador Teixeira de Sampaio permaneceu em Manila até 27 de Agosto de 1976, altura em que a Missão foi encerrada por ordem de Lisboa. A Missão filipina em Portugal sofreu o mesmo destino. Iremos assinalar dois factos importantes para Portugal e as Filipinas ocorridos em anos sucessivos.

42Pag. 367 "The Philippines: a Unique Nation" por Drª. Sonia M.Zaide, 1994

Em 12 de Junho de 1985, Lisboa assinou o Tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia, iniciando um novo período de vida internacional nos seus quase novecentos anos de história como país independente. Em Fevreiro de 1986, eclodiu, em Manila, o movimento que ficou conhecido por EDSA/86, chefiado pelo Ministro da Defesa, General Juan Ponce Enrile, pelo Vice-Chefe do Esatdo Maior, Tenente-General Fidel Valdes Ramos e apoiado pelo Cardel Jaime Sin e que veio pôr termo ao poder que há 20 anos exercia Ferdinando Marcos.

A Democracia foi restabelecida de acordo com as melhores tradições políticas filipinas e a Senhora Corazón Aquino eleita 7º. Presidente das Filipinas . Em 1990, nomeou como Embaixadora das Filipinas em Lisboa, com residência em Paris, a Senhora Rosário G. Manalo, mais tarde, em 1994. Embaixadora na Suécia. Sucedeu-lhe no cargo, a Embaixadora Rora Tolentino-Navarro, já designado pelo Presidente Ramos, tendo apresentado as suas despedidas, em Lisboa, em fins de 1996.

As Flipinas mantêm um Cônsul honorário em Lisboa, o Senhor Manuel Pinheiro. Entretanto, Portugal havia designado como Embaixador não residente em Manila, primeiro Chefe da Missão em Tóquio e, depois, o Chefe da Missão em Seul. O último a exercer este cargo foi o Embaixador Manuel Gervásio Martins de Almeida Leite, desde 21 de Abril de 1994 até 1997 enquanto era Embaixador residente em Seul desde 1 de Setembro de 1991. Se não existissem outros motivos só o facto de as Filipinas e de Portugal serem Democracias bastaria para as aproximar mas, para além disto, centenárias as relações históricas, a partilha de uma comum cultura latina e da religião católica vem reforçar o seu natural entendimento.

Em 28 de Outubro de 1995, tomou posse o Governo do Primeiro-Ministro, Eng. António Guterres, tendo como Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Dr. jaime Gama que já havia exercdio idênticas funções de 1983 e 1985. E. logo no ano seguinte ao da formação do novo Executivo, foi decidido reabrir a Missão em Manila com um Embaixador residente.

Solicitado o "agrément" por intermédio da Embaixada portuguesa em Paris foi este concedido e nomeado pelo Decreto presdiencial nr.30/96, sob proposta do Governo, o Ministro Plenipotenciário Dr. João Henrique Araújo Brito Câmara. Em 11 de Fevereiro de 1997, teve o autor a honra de apresentar as cartas credenciais a Sua Excelência o Presidente Fidel Ramos, no Palácio de Malacanang, depois da cerimónia de deposição de uma coroa de flores no monumento ao Heroi da Independência das Filipinas, Dr. José Rizal.

Logo em Março seguinte, de 2 a 4, o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Eng. José Lello, e comitiva, visitaram Manila, tendo havido conversações com o Embaixador Leonides Caday, encarregado da área de emigração no ambito do Ministério dos Negócios Estrangeiros e com o Dr. Edgardo Mendoza, Comissário para a Imigração.

Foi também, recebido pela Associação Portugeusa das Filipinas. De 20 a 22 de Maio, o Secretário de Estado do Comércio e Turismo, Dr. Jaime Andrés e Delegação, deslocaram-se a Manila para a reunião do "World Tourism Organisation". O Dr. Jaime Andrés foi recebido pela Ministra do Turismo, Senhora Mina Gabor, tendo sido proposto um Acordo de Cooperação Turística. Deve notar-se que as Filipinas estão representadas na Expor-98, de Lisboa, que será aberta em Março.

De 22 a 29 de Junho, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Jaime Gama, e comitiva, que incluia o Director Geral das Relações Bilaterais, o antigo Embaixador em Tóquio, Dr. João Salgueiro, visitaram oficialmente Manila, tendo sido recebido por Sua Excelência o Presidente Fidel Ramos. Houve, depois, conversações co o MInistro dos Negócios Estrangeiros, Senhor Domingo L. Siazon e Secretário de Estado, Embaixador Rodolfo Severino, com o Ministro do Comércio, Senhor Cesar Bautista, com o Comissário para as Artes e Cultura, Senhor Jaime Laya, e com o "Speaker", Senhor José de Venecia.

Foi o Dr. Jaime Gama igualmente recebidos por S.E. o Cardeal jaime Sin e a Câmara de Comércio Europeia das Filipinas ofereceu-lhe um jantar. foram propostos dois Acordos, um Cultural e outro de Comércio, Tecnologia e Ciência. O Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira e comitiva deslocaram-se a Manila de 17 a 21 de Julho. Sua Excelência o Presidente Fidel Ramos recebeu o General Rocaha Vieira e este assinou, juntamente com o Minsitério dos Negócios Estrangeiros, Senhor Domingo L. Siazón, um Acordo aéreo.

O Secretário-Adjunto do Governo, Dr. Salavessa da Costa assinou um "Memorandum of Understanding" para o Turismo com a Senhora Mina Gabor, Ministra do Turismo. O Cardel Sin oferecu um almoço ao Governador de Macau e este deu uma recepção, no Manila Hotel, para cerca de 350 convidados do mundo do turismo e dos negócios. Compareceram também os Embaixadores da Dinamarca, espanha, Índia. Japão, Nova Zelândia, Ordem de Malta, paquistão, e representante da Austrália.

Foi, entretanto, proposto um Acordo aéreo luso-filipino. Parece, deste modo, que um novo e desejamos que mais proveitoso capítulo nas seculares relações luso-filipinas acaba de se abrir. Sem qualquer dúvida haverá que trabalhar intensamente nos próximos anos para que os dois países desenvolvam uma multiplicidade de ralações - políticas, económicas, culturais, turísticas - que a sua longa História exige. João Brito Câmara

À MARGEM

O Homem Põe e Deus Dispõe. O senhor Embaixador Brito Câmara oferece-nos uma completa panorânica como têm sido as relações diplomáticas entre Portugal e as Filipinas desde o princípio do século XVI e de quando os portugueses ligaram o Ocidente ao Oriente.

Nos últimos parágrafos do relatório é de salientar o entusiasmo do Senhor Embaixador Brito Câmara desenvolver o relacionamento: cultural, comercial, turístico e científico com as Filipinas. Como acima o referimos o Homem Põe e Deus Dispõe e nem sempre a Obra que homem sonha é trazida à realidade. Na altura que o Senhor Embaixador Brito Câmara foi acreditado, como Embaixador em Manila, a administração portuguesa de Macau faltavam-lhe dois anos para chegar ao seu termo.

O Senhor General Rocha Vieira, o último Governador de Macau, durante o seu mandato foi fundada a "Air Macau" e havia a necessidade do Senhor Governador firmar acordos aéreos com países do Sudeste Asiático. A Tailândia assinou um a que tivemos o prazer de assistir. A "TAP- Air Portugal", voava de Lisboa - Banguecoque - Macau.

Previa-se um futuro risonho entre Portugal e os países da Ásia. Tal não viria aconteceu! A TAP, uns meses antes de Macau passar para a China, deixou de voar para a Ásia. Assim o sonho do Senhor Embaixador Brito Câmara ficou pelo caminho. A Embaixada de Portugal em Manila (pensamos), já encerrou ou irá encerrar muito em breve.

Afonso de Albuqerque também sonhou fazer um Portugal grande na Àsia... Foi-o, mas todos os impérios e países têm o seu auge de vida. Os homens também o têm, mas o tempo provoca mudanças e tudo que tem vida, mais tarde ou cedo, morre.

José Martins

3 comments:

Bob said...

nao conhecia este artigo do Embaixador Brito Câmara, é muito interessante! Continue a postar bons artigos, que nos, leitores, agradecemos :)
Abraço, Rita

Jose Martins said...

Oi Rita vá lendo... que vái sair mais surpresas!
Abraço
José Martins

Joana Margarida Brito Câmara said...

O Embaixador, Dr. João Brito Câmara para além de ser uma pessoa extremamente benévola, tem uma cultura apaixonante e é um orgulho ler um artigo escrito pelo avô.
Joana Margarida Brito Câmara.