Monday, July 30, 2007

Ana Leonowens no Bairro Português da Imaculada Conceição


Ana Leonowens é uma figura controvérsia, na década sessenta do século XIX, no Reino do Sião. Ainda na memória de muita gente o filme, musical, o "Rei e Eu", exibido nos anos de 1956, como interpretes principais: o actor Yul Brynner e a actriz Deborah Kerr. A história trazida para o celuloide foi aproveitada do livro "Anna and the King of Siam" e um filme similar a outros vários que sairam da capital do cinema Hollyood, onde a veracidade do mesmos mora ao lado, mas sim o propósito de fazer dinheiro.


Milhões de pessoas viram o filme o "Rei e Eu" e mesmo não sendo a história real, dado que a Ana Leonwens deturpou os factos, contribuiu, em parte, para que a Tailândia fosse conhecida no mundo. A presença da Ana Leonowens no Sião princípia nos anos de 1862 e no Reinado de S.M. o Rei Mongkut. Entre-os-muros do Grande Palácio exerceu a ocupação de professora de língua inglesa para a ministrar a língua aos princípes reais e senhoras siamesas.

Na visão, futurista, do monarca era a de modernizar o seu reino e com isto reatar relações com os países estrangeiros. Na década quarenta do século XIX, os "juncos" chineses tem os dias contados, com o aparecimento dos barcos a vapor no rio Chao Prya e uma nova era se aproxima para o desenvolvimento do Sião.

As permutas comerciais limitava-se aos países do Sudeste Asiático, Hong Kong, Goa, Hong Kong e extremo Oriente. O Reino do Sião, rico de recursos naturais, tem um novo desenvolvimentos económico pela frente com a chegada de grandes embarcações, alimentadas as caldeiras a carvão.

As relações, diplomáticas e tratados com os países do ocidente com o Sião resumiam-se, apenas, a Portugal vindas dos anos de 1820, de quando foi oficializada a doação do terreno onde ainda hoje se encontram os serviços de Chnacelaria e a Residência dos Embaixadores.

Porém a abastança do Reino do Sião não era desconhecida pelo Reino Unido, França, Holanda e os Estados Unidos. Os ingleses instalam-se com o primeiro consulado em 1856, depois de negociações, iniciadas, pelo Governador de Hong Kong John Bowring que viria a ocupar o posto de embaixador, não residente, em Banguecoque.


O Consulado inglês viria instalar-se numa parcela de terreno, adjacente, ao sul do consulado de Portugal (aonde, hoje, se encontra os Correios Centrais de Banguecoque).

Os missionários protestantes americanos, conhecedores das bases da religião católica introduzida pelos missionários do Padroado Português do Oriente, nas primeiras décadas do século XVI e a presença dos missionários das Missões Estrangeiras de Paris, em meados do século XVII, em 1828 os primeiros chegam a Banguecoque e cinco anos depois instalam-se, construindo uma residência de madeira, no terreno do consulado de Portugal, cujo cônsul, na altura, era Marcelino Rosa (A única informação que conhecemos sobre apresença dos missionários americanos presbiteranos no espaço do consulado português é do livro "Residence in Siam - At the Capital of the Kingdom of Siam (1850), LONDON: Office of the National Illustrated Library, 227, Strand, 1852, escrita por Frederick Arthur Neale.

Entretanto durante os primeiros 18 anos de permanência no Sião, os missionários americanos não conseguiram converter ao protestantismo uma alma que fosse. Eram no entanto pessoas altamente instruídas e relevantes os serviços prestados à Corte do Sião, no campo da medicina e numa altura em que em Banguecoque grassava a cólera, a malária, e outras pandemias tropicais; fundam a a primeira tipografia que imprime o primeiro jornal em caracteres do alfabeto siamês e inglês. S. M. o Rei Mongkut aprendeu a língua inglesa, muito antes de ser entronizado Rei com os missionários americanos que a dominava e escrevia perfeitamente e viria a trocar, após sentado no Trono, diversa correspondência com W.J. Butterworth, Governador de Malaca e Singapura.

S.M. o Rei Monkgut é um "gentleman" nos termos com que se dirige a W.J. Butterworth. No decorrer da prosa vamos encontrar um monarca extremamente culto e o interesse em conhecer as obras de arte expostas no Museu de Singapura.

Em 18 de Julho de 1854 escreve uma carta, diplomática, a Sua Excelência Jonh Bowring, ao serviço da Raínha Victória e o Supremo Governador de Hong Kong, onde lhe conta a sólida amizade com o já seu amigo Coronel Butterworth, Governador de Malaca e Singapura. Era o príncipio do reatamento de relações e a concretização de um Acordo entre o Reinos do Sial e da Inglaterra.

Em 27 de Março de 1855 Jonh Bowring, de Honk Kong está a bordo do vapor "Rattler" na embocadura do rio Chao Prya e na sua primeira visita a Banguecoque. S.M. o Rei Mongkut enviou o seu privado Ministro Nai Kham Nai Snong, em seu nome, dar-lhe as boas-vindas e como presente: deliciosas frutas do Sião. E, recomenda-lhe, que o vapor "Rattler" navegue o mais pronto possível nas águas do Chao Prya lance ferro em "Parnam" onde o iria receber num espaço que antes tinha mandado decorar.


Ficaria, com a visita do Governador de Hong Kong, alinhavado, o primeiro Tratado com a Inglaterra e não tardariam outro com os Estados Unidos (Nota do autor: (Os Tratados entre o Reino do Sião e países estrangeiros eram redigidos na língua portuguesa, siamesa e na do país que tinha efectuado o acordo. A língua portuguesa, desde a chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, foi a franca desde o médio Oriente, Extremo Oriente e Índias Orientais)

Em 17 de Julho de 1856, S.M. o Rei Mongkut enviava uma carta ao primeiro Cônsul de Inglaterra, C.B. H Hillier Esqu. que transcrevemos algumas passagens:

"Sir,

I am indeed doing ny attention to let you have proper place for the Bristish Consulate.
The greater part of the piece of land in neighbouring place of the Portuguese Consulate is belonged to many Malayan and Burma people who are very common native inhabitants here. I will compel them all owners of that part of land to sell their land to you in costumary price of every one Tical for every one square fathom, according to the modern Siamese law and Roay custom, or litle lesseing for the part thereof, which were or are useless to the possessors before. But I am in difficulty for a part that land wished and pleased by you, in wich the limekiln is inclued or enclosed, as the said part of that belonged to His Excellency Phya Bharabal Sombatta, who is a noble Minister of His Majesty the Second King, and not mine, so his land is in right to be dependant to the Second King. I have no right to compel the owner or possessor thereof to sell to you in the foresaid price".

S.M. o Rei Mongkut trocou cartas com a Rainha Victória, o Presidente dos Estados Unidos Buchanan, Papa Pio IX. Um monarca acompanhar o desenvolvimento do mundo da época e para isso terão contribuído os missionários protestantes americanos, com quem S.M. o Rei Mongkut, ainda monge budista conhecido por Makut Bhikku, teve relações de amizade e lhe foram frutíferas não só nos contactos que lhe dão conta do mundo exterior, que galopava para o modernismo e aprender a ler, escrever e a falar, correctamente, a língua inglesa.

S.M. o Rei Mongkut pretende que os seus filhos príncipes aprendam a dominar a língua inglesa, quando esta já se opõe à portuguesa nas terras da Ásia, Sudeste Asiático e mais além. As mazelas provocadas a Portugal com a perda da independência, a favor dos Filipes de Espanha, por 60 anos; as invasões napoleónicas no início do século XIX; a fuga da família Real para o Brasil e instalar a corte por 13 anos deixa o "Império à Deriva" e um golpe, profundo na lusitanidade na Ásia.

Os Reis do Sião, em Ayuthaya e depois na era de Banguecoque, continuavam (aliás ainda nos dias hoje) a previlegiar e a ter grande consideração pelos portugeses e a lealdade demonstrada desde 1511, de quando chegados a Ayuthaya. Portugal foi único país a quem o Rei Rama I, em 1782, fez a doação (oficializado eem 1820) de um largo terreno, na nova capital do Sião, para edificar Feitoria, doca para construir e reparar navios. Os cônsules portugueses, enviados por Macau e Goa, chegaram a viver numa completa miséria e para sobreviverem, por algumas vezes, com empréstimo, do Rei.

Os cônsules de Portugal iam escondendo as suas misérias aos colegas de outros consulados já a viverem em habitações decentes enquanto que os representantes de Portugal numa casa modesta erguida sobre estacas de toros de árvores de teca e taipas de canas de bambús a fazer as divisões daquele humilde e pouca digna para residir um cônsul Portugal, país que tinha ostentado prestígio e grandeza no Sião e no Oriente.

Em Março de de 1862, Anna Leonowens com seu filho Louis de sete anos saiu de Singapura, a bordo do vapor "Chao Pya" para Banguecoque. A viagem demorou 5 dias. Entre os alunos a quem Anna iria ensinar a língua inglesa: o Príncipe Herdeiro Chulalongkorn, com 9 anos, outros príncipes e princesas, suas mães e ainda se incluiam mulheres do hárem do Palácio.

Anna Leonowens não foi a primeira professora de inglês no palácio de S.M. o Rei Mongkut. Onze anos antes de Anna chegar a Banguecoque, já esposas de missionários da Missão Americana: Matton, Jones e Bradey leccionaram inglês a algumas senhoras, durante dois dias por semana, na parte de manhã.

Entretanto S.M. o Rei Mongkut refletiu e pensou que as três senhoras, talvez, incutissem nas alunas os preconceitos da religião cristã protestante. Ao mesmo tempo, embora com conhecimentos da língua inglesa não se encontravam habilitadas com experiência para um ensino correcto e eficaz.

Anna Leonoewns foi contratada através do agente, de S.M. o Rei Mongkut, Tam King Ching em Singapura e por sugestão do gerente da Companhia do Borneo, John Adamson. Entretanto Sua Majestade recomendou a Tam King Ching: "que pretendia uma professora especializada no ensino da língua inglesa, conhecedora de ciência e literatura e não viesse com o propósito de conversões ao cristianismo.

Anna, em companhia de seu filho Louis vivem fora do palácio mas todas as manhãs caminham no "Nang Harm" (ruas dentro do palácio e onde vivem as mulheres, concubinas, dançarinas e outras senhoras que trabalham no palácio real). Anna é uma mulher inteligente e foi lhe fácil assimilar a língua siamesa e penetrar no segredo da vivência dessas mulheres entre-os-muros. Vive no reinado e das glórias de sua raínha Victória, de Inglaterra. É, assim, uma mulher arrogante e a sua prosa escreve-a em estilo de novela e ficção. Fora da Corte do Sião volta em escritora e escreve por dinheiro.
Pouco se sabe das suas orígens que as vai escondendo, que as vai ocultando, conforme os altos e baixos de sua vida É uma senhora, jovem viúva de três décadas de vida.

ANNA LEONOWENS VISITA A ROSA HUNTER NO BAIRRO PORTUGUÊS DA IMACULADA CONCEIÇÃO, EM SAMSEM

Em 1991 ao acaso encontrei o livro "The Romance of the Harem" de Anna Leonowens que adquiri com certo entusiasmo. Não pensei que o livro inserisse as visitas ao Bairro Português de Samsem, que bem conhecia a história de sua fundação. Ao desfolhá-lo nas páginas no capitulo XVI vou encontrar o genérico: "The Christian Village of Tâmseng, or Thomaz the Saint"

Embora de jovem tivesse visto o filme, em Portugal o "Rei e Eu", que de facto me fascinou os cenários e as interpretações de Yul Brinner, com a sua figura irrequieta de cabeça careca e da actriz Deborah Kerr, uma mulher bonita e a desempenhar o papel de uma senhora rebelde e no constante advertir Sua Majestade o Rei Mongkut.

Certo, também, que mesmo vivendo em Banguecoque havia uns nove anos, nunca me tinha enfronhado na vida e obra do Grande Monarca do Reino do Sião, Sua Majestade o Rei Mongkut, o iniciador de uma nova dinâmica que levaria a Tailândia a um país moderno nos dias hoje. Graças à aquisição do "Romance do Harem" acabei por comprar todos livros que me iriam informar acerca da vida e obra do Grande Rei que traçou um novo futuro de desenvolvimento para a Tailândia. Seu filho o Rei Chulalongkorn, seguiu suas linhas de pensamento e o actual Rei da Tailândia Sua Majestade Bhumibol Adulyadej, continuou a seguir a mesma orientação de seu avô e bisavô.

O Bairro Português da Imaculada Conceição (Samseng nome correcto do local), a cerca de uns 5 quilômetros do Grand Palácio e ao norte, era um local que a Anna Leonowens, amiudadas vezes visitava. Refere-se que ali teve uma amiga, luso descendente, de nome Rosa Hunter. Ora a Anna, no relato que faz ao bairro português, não lhe dá as melhores referência e nos dá a convicção que a Anna, nem está bem com ela tão-pouco com as pessoas que a rodeia e, uma, mulher irreverenta.

A Anna foge à realidade e como acima já o afirmamos, depois de ter perdido o emprego (nunca se chegou a conhecer a razão) na corte de Sua Majestade o Rei Mongkut, dedicou-se à profissão de escritora, nos Estados Unidos e neste país encontrou um "filão de ouro" que devido ao desconhecimento, das pessoas, do Reino do Sião, ela explorou-as com a "mentira" e provocou dano à "Corte" do Reino do Sião.

A Anna tornou-se uma "novelista", que dado à incredibilidade do povo americano, na altura e parco conhecimento dos países asiáticos era solicitada para proferir conferências perante um público "embasbacado" a deliciarem-se com as suas, bem formalizadas, "petas", orientais.

Dramatiza a triste história da Rosa Hunter, nativa do Sião, casada com Roberto Hunter (1), secretário privado de Sua Majestade o Rei Mongkut. A Rosa deu-lhe dois filhos que lhos tinha "raptado" de quando crianças e as fazer embarcar para a Escócia a fim de serem educados sob a influência da Igreja Livre da Escócia. Rosa vivia em constantes conflitos com o marido Roberto Hunter que terminou em separação.


Em curtos intervalos Anna Leonowens visitava Rosa e escrevia-lhe cartas aos filhos, em inglês as quais ela lhas ditava na língua siamesa. Anna Leonowens navegava, num pequeno caíco de dois remadores desde o embarcadoiro, nas traseiras do Grande Palácio até ao bairro da Imaculada Conceição.

Descreve o bairro de ruas estreitas, sujas e não lhe dá o verdadeiro nome ao bairro, mas o de Santo Tomás. Não simpatiza com a religião católica e termina a "novela": que partiu triste pela história contada pela Rosa Hunter e pelas condições, precárias, de vida encontradas.

O " Romance do Harem" foi editado, pela primeira vez na cidade de Boston em Dezembro de 1872 e 15 anos depois de Anna Leonowens ter deixado o Sião. Tudo que escreveu (embora os locais existissem) foi pura ficção. A novelista, já famosa, de fértil imaginação, procurou ludibriar e explorar a credibilidade dos seus leitores.

José Martins

(1) Sobre Roberto Hunter Frederick Arthur Neale, refere o seu nome, em várias, passagens, na sua obra "Residence in Siam" e, pela tarde, reunia-se com outros amigos, (incluindo o cônsul português Marcelino Rosa) estrangeiros à sombra da árvore tamarindeira, do terreno do consulado de Portugal para o cavaco quotidiano. Isto nos anos de 1850. Porém no livro "Romance do Harém", há uma referência a Roberto Hunter pela pena de William Bradley que nos diz: Roberto Hunter Júnior, privado Secretário do Rei, bebia muito e numa noite acabou por cair, quando embriagado, na doca onde morreu afogado, em 1865. Seu pai, Roberto Hunter, deixou o Sião em 1844. Era um escocês que veio para Bangkok em 1820. Foi casado com uma senhora, natural de Portugal, de nome Angelina. Enviou para Inglaterra o seu filho mais velho (o próprio) Roberto para ali ser educado. De facto o Roberto Hunter existia e como os ingleses, residentes, eram escassos, certamente que Anna Leonowens (nos leva a crer) que se relacionou com o Hunter. Encontrava-se no Sião quando embriagado tropeçou e foi cair nas profundezas da doca do porto de Banguecoque e morreu. Neale de facto refere-se ao Hunter que era o administrador do porto de Banguecoque. A história da Rosa Hunter no bairro português da Imaculada Conceição não é mais nem menos que uma história inventada, da fértil, imaginação, de Anna Leonowens, que escrevia para viver. Temos até dúvidas se a Rosa Hunter existia no Bairro Português da Imaculada Conceição. É que temos a cópia de um livro, na nossa biblioteca particular, de Assentos de Nascimento, Baptizados, Casamentos e Óbitos que foi iniciado em 1868. Porém, como é natural não se encontra designado o assento de nascimento, baptizado ou casamento de Rosa Hunter. Mas pelo menos deveria estar lavrado o Assento de Óbito, dado que o livro encerra em 1901. Impossível a Rosa Hunter encontrar-se entre o número dos vivos, no princípio do século XX, no Bairro Português da Imaculada Conceição em Samsem.

3 comments:

Ingrid said...

Adorei o texto principalmente pq vi o filme e fiquei curiosa sobre a real história de Anna no Sião.
Amei...

Jose Martins said...

Ingrid,
Muito obrigado pela referência.

Prof Ms João Paulo de Oliveira said...

Ilustríssimo Senhor José Martins!
Graças a intercessão do meu estimado confrade e amigo António Gambeta, tive a prerrogativa de conhecer seu palpitante espaço cibernético e me deparar com um supimpa relato circunstanciado da professora Anna e mais fatos históricos referente ao Reino do Sião!
Vossa Senhoria, com sua erudição e viés arguto, nos torna propensos a aprender mais!
Muitíssimo obrigado!
Caloroso abraço! Saudações vigorosas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP
Brasil

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