Há muitos portugueses que foram esquecidos nas páginas da História de Portugal na Ásia e Oriente. O fotógrafo português J. António, entre os tantos, foi um dos "grandes" ignorados!
S.M. O Rei Chulalongkrorn
Porém historiadores estrangeiros e apreciadores da arte de "bem fotografar" por diversas vezes mencionaram o seu nome e a sua arte, fina, de obter imagens. Esta figura, nascido no século XIX (sem ainda se conhecer, exactamente, se abriu os olhos ao mundo no antigo Reino do Sião, em Macau ou em Portugal), excerceu a profissão de fotógrafo dentro de uma humildade que impressiona.
S.H. o Príncipe Damrong - Ministro do Interior
O J. António teve certamente um mestre que, preliminarmente, lhe ensinou a focar a imagem, enquadrá-la e depois a arte, já nascida com ele, viria depois.
António´s Concept of a Peasant Girl
São inúmeras fotografias e, outras transferidas para postais ilustrados que a comunidade, estrangeira, residente na cidade de Banguecoque, no príncipio do século XX, enviavam aos familiares e amigos, pelo correio, marítimo, transportado pelos barcos a vapor. O J. António, fotógrafo português, em parte a ele se deve a divulgação do Reino do Sião. Foi J. António que editou o primeiro "roteiro" de Banguecoque e do Reino do Sião no princípo do século XX: "The 1904 Traveller´s Guide to Bangkok and Siam".
O famoso sorriso siamês
Obra que mesmo passados mais de 100 anos encontra-se absolutamente actualizada. Pode hoje sem ponta, alguma, de dúvida estar actualizada no que se refere à topografia dos locais aonde J. António foi carregando a máquina e o tripé e colocá-lo no lugar certo para recolher em imagens os cenários que os seus olhos observavam.
Um estudo em cima de duas idades
Imaginamos o J. António a viajar navegando, em almadias, pelos rios e canais, de comboio (há pouco tempo em circulação no Reino do Sião) puxados por máquinas a vapor fumarentas e nas províncias em carros puxados por búfalos.O fotógrafo português não foi só um artista que vislumbra o cenário exterior e deseja inseri-lo nos sais de brometo de prata colados à chapa de vidro que a visão da lente vai fixar a imagem.
Músicos
O J. António no Reino do Sião é o fotógrafo oficial da Corte do Grande Rei Chulalongkorn. Fotografa Suas Majestades o Rei , a Raínha, príncipes e princesas, altas individualidades oficiais e outras da sua época. O J. António, fotógrafo português, não é privado de recolher as imagens que pretende obter. Recolhe e publica fotografias no seu "roteiro" tudo que melhor lhe parecer sem a mínima censura.
Raparigas da Birmânia em Banguecoque
Assim vamos encontrar na página 68, da sua obra uma imagem com a legenda "An Old Style Execution" de um condenado à pena capital.Numa das primeira páginas do Guia, editado por J.António, informa-nos: Member of the Geographical Society of Lisboa and of the Commercial Geographical Society of Paris, &C., &C., Já me referi na primeira peça sobre o António (inserida neste blogue em 21 de Julho de 2007) em cima de pertencer, como sócio, à prestigiosa instituição portuguesa e à francesa.
Mohn mulher (peguana) - Senhora siamesa em traje moderno - Mulher siamesa da província
Outro português, seu contemporânio, em Banguecoque, Elmínio Maria Sequeira, foi igualmente como o J. António membro da Sociedade de Geografia de Lisboa. Não está fora de hipótese que os dois foram amigos.Estamos convencidos (e não paramos) enquando não conseguirmos saber a verdadadeiras raizes de família de António. Seguimos um trabalho de investigação, minucioso, na "Siam Society" para onde vamos aos sábados, "passar a pente fino" o único jornal, salvo, filmado para micro filme, "The Bangkok Times", edições a partir de 1888 até depois do século XX.
Um estudo fotográfico idealizado para o conhecimento das mulheres camponesas
Será um trabalho moroso, ler os factos principais passados em Banguecoque, em letra "miudinha" e alguma já ilegível. Já encontramos, inseridas, notícias interessantes e relativas à comunidade, portuguesa residente, num Banguecoque, ainda pacato e a nascer para o modernismo e desenvolvimento. Além de ir encontrar notícias que me digam algo sobre o J. António, o fotógrafo português, sei de antemão que ali tenho fontes informativas relacionadas com os portugueses da época.

Períodos de vida de mulheres siamesas
Presença desconhecida que os parcos meios de comunicação na altura, ou por outras razões, os representantes de Portugal no Reino do Sião, de então, não deram conta de homens de valor, como o J. António, fotógrafo português, que foi, como tantos outros, um quinhão da Diáspora portuguesa na Ásia.Antes de encontrarmos a verdadeira história de António, vamos, por ora, cingirmo-nos à informação da introdução do livro: "The 1904 Travel´s Guide to Bangkok and Siam" do Dr. Walter E. J. Tips, em Setembro de 1996. Introdução escrita em língua inglesa que traduzo, livremente, alguns trechos:

Preparando folhas de betel para mascar
Os detalhes da vida do autor deste livro, J. António, continua obscura e de momento uma obra, publicada, entre os muitos autores da segunda metade do reinado do rei Chulalongkorn. Há muita razão para que isto aconteça. Em primeiro lugar, foi a sua simpatia que teve para com a gente comum e em segundo o seu talento como fotógrafo. Produziu excelentes fotografias e pensa-se, pelo seu passado, anterior, de vida, como um obscuro desenhador ao serviço da "Royal Railway Department", designado no jornal "Bangkok Times" (1894) "Director for Bangkok and Siam", com esta profissão e desconhecida as suas habilitações na arte de fotografar. Na edição do deu "roteiro", J.António revela ser membro da "Sociedade de Geografia de Lisboa". Provavelmente é descendente de família portuguesa. Charles Buls, um viajante belga (1901), fez-lhe uma visita no princípio do ano de 1900 e comprou-lhe larga quantidade de fotografias para ilustrar o seu livro "Croquis Siamois".
Outro estudo sobre o músico itinerante
J.António deve ter iniciado a aprendizagem da fotografia no estúdio da firma Lenze e Kleingroth, estabelecida em Banguecoque em 1894. Possui estúdios em Singapura e na Indonésia. O Bulls visitou o estúdio da Lenze, em Banguecoque, em 16 de Fevereiro de 1900, e relata que o fotógrafo não se encontrava e a porta encerrada. É de crer que as fotografias que o Bulls possui nos "Arquivos da Cidade de Bruxelas" são trabalhos de J.António e não do estúdio de Lenze e Kleingroth. Entretanto na sua obra "Croquis Siamois" não dá a conhecer o verdadeiro nome do autor.
Mulheres preparam folhas de palmeira para livros
Largo número de imagens de J.António são aproveitadas, reimprimidas e inseridas em outras obras suas: "Siameses Sketchs", bem como o modo de vida das pessoas, ordinárias, siamesas no livro "In Siam" (editada por Jotttrand and Jottrand, 1905) e depois viria a contribuir com fotografias para ilustrar a edição (da monumental obra que descreve, globalmente o Siam, no princípio do século XX e a qual possuímos na nossa biblioteca particular), "Twenttieth Century Impressions of Siam: Its History, People, Commerce, Industries, and Resources"(Wright and Brakspear, 1908).

Um monge com os acessórios para a prática da religião budista
Os olhos de J.António estão virados para os costumes das pessoas, comuns, do reino e pretende, nas suas imagens, mostrar a forma de estar no mundo dos siameses. J.António é um mestre na arte de bem fotografar no "Charoen Krung Photographic Studio". Entretanto não abandona o desenho de projectos de topografia, de arquitectura e engenharia, que lhe são encomendados. Está envolvido nas duas profissões. Apaixona-se pelos cenários rurais e pelos ribeirinhos. A uns duzentos metros do estúdio tem o majestoso rio Chao Prya (Chao Praiá) e os canais, afluentes e toda aquela poesia que as margens encerram e a vida quotidiana dos banguecoquianos. O rio e os canais são os meios de comunicação, principal, da capital do Sião, onde apenas nessa altura tinha sido aberta, havia 20 anos, a primeira artéria, a Charoen Krung e onde se estabelecia o J.António e outras empresas locais e estrangeiras. J.António anunciou a abertura de uma filial, na cidade, o que se presume ter sido instalado um estúdio na área do Palácio Real (como já descrevemos J.António foi fotógrafo oficial na Corte do rei Chulalongkorn).
Um peregrino chega ao final do seu destino
Anos depois J.António teve pela frente a concorrência com a abertura de novos estúdios e estes situam-se a escassos metros do seu. Entre essas lojas de fotografia está uma importante: "Ta Tien Dispensáry", propriedade do Dr. E. Reytter, médico belga, que viu no negócio da fotografia rentável. A fotografia principía a popularizar-se no Sião e os siameses apreciam ser fotografados. A partir dessa data a população de Banguecoque ganha o gosto pela imagem e mantém-se nos dias actuais.

Um monge (noviço) budista
"Bem me lembro, de quando há 30 anos, visitei pela primeira vez Banguecoque e não havia rua nenhuma que não tivesse uma loja e estúdio de fotografia. Foi, a ironia do destino, que me deu a oportunidade, numa dessas lojas, de conhecer a minha mulher, chinesa, de já de uma união de 27 anos. Pertencia a uma família, onde três irmãos seus eram (e são) estabelecidos, em várias áreas de Banguecoque, no ramo da fotografia"
J.António no seu "roteiro" incluiu publicidade em língua francesa e informa pertencer, como membro, da "Commercial Geographic Society of Paris". Igualmente refere, com humildade, ter sido galardoado com medalha de prata na exposição: "Hanoi Exhibition 1902-1903". Mas em campos diferentes J.António foi galardoado com outras medalhasÇ Eduardo Fornori, "Grand Prix", duas medalhas de prata; "General Importers and exporters" uma medalha de bronze; Kim Sen lee & Co., empresa proprietária de serrações de madeira, de fábricas de descasque de arroz, confere-lhe uma medalha de ouro.
Um grupo, tradicional, de camponeses siameses
Fool Loong oferece-lhe uma medalha de prata, pelos desenhos encomendados a que dá o título ao seu trabalho; "Furniture made from any design". A publicidade inserida no seu "roteiro" é de muita utilidade para os investigadores, onde dá conta de uma drogaria, em Korat (nordeste do Sião e a cerca de 300 quilómetros de Banguecoque) cujo propietário é o estrangeiro, Michael Franford. E ainda, numa vila, nas proximidades da cidade de Korat, encontra-se o inglês Dr. L. Verkley com uma farmácia. Figuram, também, no guia, páginas completas a anunciar o fabrico de gelo, engarrafamento de refrigerantes: Coca Champagne, Cherry Cider, Strabewyad, Stone Ginger Beer, Rasperryby Champagne, Shand Gaff - bebida seca para os climas tropicais - que se supõe ser a salsaparrilha. Continuarão as investigações em cima da vida e obra do J.António, que supomos e a julgá-lo português.
José Martins
P.S. Fontes informativas e fotografias: "The 1904 Travel´s Guide do Bangkok and Siam" J.António