Thursday, July 1, 2010

CARTOGRAFIA MARÍTIMA - NA EXPANSÃO PORTUGUESA QUINHENTISTA

CARTOGRAFIA DO ENCONTRO OCIDENTE-ORIENTE

Há dias e na continuada procura, na minha biblioteca particular, de material histórico e que este se refira à expansão portuguesa na era dos descobrimentos fui encontrar um excelente documento, de 160 páginas que em Agosto de de 1996 o Comandante Manuel António Lopes, do Secretariado Executivo, da Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, teve a gentileza de me enviar.

Com devida vénia, tomámos, a liberdade de copiar, parte dos textos e das ilustrações inseridas na publicação “Cartografia do Encontro Ocidente-Oriente” que considero uma obra de vasto valor, histórico e igual a outras mais, editadas, pela Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses na altura da administração do Território, por Portugal e sob o executivo do General Rocha Vieira.

A “Cartografia do Encontro Ocidente-Oriente” foi patrocinada pela Fundação Oriente e bilingue que engloba a língua portuguesa e a chinesa.

Dado o interesse (e por isso o fizemos), que o conteúdo, da matéria, poderá vir a ter para os interessados no alargamento dos seus conhecimentos sobre a história e navegação na era da expansão, portuguesa nos oceanos, que partindo de Sagres, em direcção aos cinco continentes, do globo, descobrindo novas terras e gentes não poderia deixar ficar em branco, sem incluir, este valioso documento histórico e cultural no “site” Aquimaria.

“Esta é a carta de todo o mundo até hoje conhecida a qual eu, Lopo Homem, cosmógrafo, comparando muitas outras, tanto antigas como modernas, debuxei com grande aplicação e diligente trabalho na ilustre cidade de Lisboa, no ano de nosso senhor de 1519 por mandado de Manuel, inclito Rei de Portugal” (Biblioteca Nacional de Paris).

“...achada a maneira de pôr cada uma das terras e mares deste mundo em seu certíssimo lugar, ficaram muito fáceis todas as navegações antigas, descobriram-se muitos mares e terras de novo, facilitaram-se todos os comércios, descobriu-se outro mundo novo, e fica agora tão fácil dar uma volta a todo o mundo, como era antigamente navegar de Itália para África e finalmente, com muita facilidade agora se comunica com todo o mundo e se navega.

E esta é a verdadeira e perfeita Geografia, a qual principalmente consiste em demarcar as terras pela correspondência que tem cada uma ao céu, com a devida largura e longura e desta maneira se pode pôr em uma breve carta e pintura todo o mundo, e qualquer parte, província, reino ou comarca dele com muita certeza....” D. João de Castro? – da Geografia por modo de diálogo. Cerca de 1535

A cartografia é a representação, parcial ou total, da Terra segundo uma escala numericamente definida e determinadas convenções.

A cartografia portuguesa, dos séculos XVI e XVII, exprime a explosão informativa sobre a hidrografia e as massas litorais do planeta, consequência da Abertura do Mundo, a partir do século XV, à comunicação marítima regular.

A cartografia da expansão planetária dos portugueses é um conjunto de cartas náuticas de grande precisão nos complexos marítimos costeiros e com a máxima elucidação dos núcleos geográficos com importância para a navegação (cabos, baías, golfos, ilhas, portos).

A cartografia náutica nasce, nos séculos XIII – XIV, no Mediterrâneo. Estas cartas náuticas, conhecidas como “Cartas-Portulano”, estão traçadas de acordo com rumos magnéticos e

Distâncias estimadas. São, em geral, de forma tectangular, na proporção de dois (sentido leste-oeste) para um (sentido norte-sul), e apresentam uma rede básica de linhas de rumo.

As cartas-portulano representam correctamente as bacias do Mediterrâneo e do Mar Negro, e as costas europeias do Atlântico, até ao norte de França e ao sul das ilhas Britânicas.

A carta-portulana é a transcrição gráfica do escrito no roteiro (portulano) e, por isso, contém a representação da costa e dos lugares nela visitados e localizados pelos navegadores de acordo com uma navegação, costeira, de “rumo e estima”.

A cartografia náutica dos portugueses nasce desta carta-portulano mediterrânea e afirma-se como um desenvolvimento da carta rumada e uma revolução na representação correcta dos diferentes oceanos e continentes.

A partir da herança mediterrânea, a cartografia náutica portuguesa começa, por volta de 1443, a representar o Atlântico e o litoral de África, até então ignorados na Europa.

Entre 1446 e 1453 estabeleceu-se um regular trabalho cartográfico de recolha e de actualização de informação, dos litorais de África para além do Cabo Bojador, limite tradicional das navegações no oceano Atlântico, já assinalado em algumas cartas portulano.

A carta náutica portuguesa está ligada ao aparecimento, no século XV, da navegação astronómica. Isto é, de uma náutica baseada em processos de medição de coordenadas astronómicas que permitem definir a posição, rigorosa ou aproximada, do navio.

A determinação da latitude, durante o dia, pela observação do sol e à noite, pela observação de outras estrelas, como a Estrela Polar e o Cruzeiro do Sul, foi alcançada no século XV levando à invenção ou à adaptação de novos instrumentos (casos do astrolábio náutico, da balestilha e do quadrante).

A náutica astronómica é um processo técnico, com várias fases, que, no Atlântico, é criado pelos portugueses entre 1430-1440 e 1460-1480. A navegação por “Alturas-Distância” foi solução encontrada para nevegar fora das proximidades das linhas da costa.

As cartas náuticas portuguesas são rumadas, com uma tradicional rede de rumos magnéticos, mas , possuem uma ou mais escalas de latitudes. Este compromisso, da carta náutica rumada com as necessidades da náutica astronómica, leva à graduação do equador com a mesma escala de que se servem para graduar um meridiano em latitudes, daí resultando, uma nova espécie de carta rumada marcada, com pequenos quadrados, formados pelos paralelos e pelos meridianos.

A introdução das escalas de latitudes foi a grande inovação técnica portuguesa na cartografia do séculoo XVI. Existem, ainda, na mesma época, outras inovações portuguesas, da técnica cartográfica, como, por exemplo, os planos hitrográficos com vistas de costas rebatidas no plano horizontal e o registo de sondas.

Para além destas inovações técnicas a cartografia náutica portuguesa, dos séculos XVI e XVII, é uma imensa revolução informativa sobre os espaços oceânicos e litorais de todo o Planeta.

Pela primeira vez, no Ocidente, existe uma cartografia náutica para além do Mediterrâneo. Uma cartografia náutica com representação objectiva dos mares e dos litorais africanos, asiáticos e americanos.

Em relação à Ásia é a cartografia náutica portuguesa quem revela, a todo o Ocidente, os verdadeiros mares e litorais. É a cartografia náutica portuguesa que institui nomenclaturas, hoje universias, de espaços como, por exemplo, China, até aí designada por Cataio, Mangui ou Índia Superior e Japão, antes chamado Cipango.

A cartografia náutica portuguesa apresenta, uma grande e concreta informação do Índico e do Pacífico nos seus litorais orientais, porque os portugueses são os primeiros, e, durante certo tempo, os únicos europeus nos espaços em questão.

O contacto regular e, mesmo, o diálogo de conhecimentos com o Outro Oriente é decisivo. É a ligação à marinharia e à cartografia árabes, malaias, javaneses e chinesas que permite, por exemplo, logo, em 1502, cartografar Malaca, o golfo de Tonquim e Ainão, no planisfério, anónimo dito de “Cantino”.

O encontro dos saberes cartográficos, ocidentais e orientais, na cartografia náutica portuguesa vai aumentando, ao longo dos séculos XVI e XVII, e torna-se mais directo com os cartográficos luso-indianos e luso-malaios: Fernão Vaz Dourado, Lázaro Luis e Manuel Godinho de Erédia.

O grande impacte da cartografia náutica portuguesa na restante cartografia europeia é o fruto da inovação técnica das escalas de latitudes, da revolução informativa sobre as diversas zonas terrestres e hidrográficas e da circulação de pilotos, de roteiros, de cartas e de cartógrafos portugueses por toda a Europa, como vemos, por exemplo, nos casos de Diogo Ribeiro em Espanha, André Homem em França, Diogo Homem em Inglaterra, etc..

A cartografia náutica portugesa, dos séculos XVI e XVII, constitui um dos momentos fundamentais da história da geografia. Representa um salto, qualitativo e informativo, no quadro europeu do saber. Uma nova idade informativa, dos mundos do mundo, apenas possível, pelo encontro com as Outras Sociedades e Culturas da Ásia, da África e da América.

José Martins 2003

Continua

CARTOGRAFIA

Dois mundos Fechados ao Universo Aberto

Nos finais do século XIV o conhecimento do Mundo é reduzido. As diferentes civilizações vivem numa descontínua e limitada comunicação e conhecimento. É a Idade dos Mundos Fechados, ou seja, o bloqueamento nas comunicações internacionais.

Então, as civilizações vivem, centradas sobre si próprias. As culturas exprimem uma atitude de isolamento e de fechos. As economias, predominantemente terrestes, são limitadas na quantidade e na variedade da produção e da circulação de bens.

A cartografia da Idade dos Mundos Fechados traduz a pouca informação existente sobre a Europa, a África e a Ásia. A imagem do mundo mistura atitudes etnocêntricas, das diferentes civilizações, com um imaginário que preenche os vazios de conhecimento verdadeiro.

No século XV os portugueses avançam no Atlântico e na costa ocidental de África.

A partir dos anos de 1420-1430 dá-se o povoamento da Madeira e das ilhas dos Açores. Em 1434 Gil e Eanes ultrapassa o Cabo Bojador limite tradicional das navegações no Oceano Atlântico. Nas décadas de 40 a 60 avança-se na costa africana da Guiné e na descoberta do arquipélago de Cabo Verde. Na década de 70 são descobertas as ilhas de Fernando Pó, S. Tomé, Príncipe e Ano Bom. Em 1483 o navegador Diogo Cão chega ao Congo-Zaire e em 1487-1488 dá-se a ligação Atlântico-Índico com o dobrar do Cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias.

Nos finais do século XV, os portugueses estabelecem a comunicação marítima regular entre o Atlântico e o Índico, a Europa e a Ásia a partir da viagem de Vasco da Gama em 1497-1499.

A expansão dos portugueses no Mundo continua ao longo do século XVI. Na África Oriental, com expedições ao Monomotapa em 1512 e à Etiópia em 1520 e 1540.

Na América, em 1500, Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil e os irmãos Corte-Real à Terra Nova. Em 1525, Estevao Gomes navega a Costa Oriental da América entre a Nova Escócia e a Florida e a Costa da Califórnia é conhecida, em 1542-1543, por João Rodrigues Cabrilha.

Na Ásia, os portugueses chegam a Malaca em 1509, às costas da China em 1513 e ao sul do Japão em 1543.

O conhecimento do Atlântico e da ligação com o Índico no século XV e a chegada ao Pacífico e ao Extremo-Oriente no século XVI permitem aos portuguese um conhecimento, global e objectivo, da terra.

As viagens marítimas dos portugueses revelam o essencial da Terra e da Humanidade contribuindo para a passagem de uma Idade dos Mundos Fechados a uma Idade do Universo Planetário Aberto.

A expansão dos portugueses no Mundo apresenta quatro categorias essenciais: Pioneirismo Temporal, porque antecendo em cerca se setenta a cem anos a expansão dos outros europeus; Dispersão Espacial, porque é a única expansão presente em todos os oceanos e continentes; Pluralidade Civilizacional, devido à capacidade de se organizar no mundo segundo duas grandes e diferentes modalidades a da intercomunicação, em África e no Oriente, e a da criação espacial, no Brasil; Universidade Cultural graças à caracteristica de adaptação e de comunicação com as diferentes civilizações.

A ÀSIA-PACÍFICO NOS PLANISFÉRIOS PORTUGUESES DO SÉCULO XVI

<<…Navega-se mais pela marinharia e boa estimativa que os pilotos têm do que pela que antigamente se descobriu..>>

DIOGO AFONSORoteiro de Navegação de Lisboa para a Índia, c.1535

<<…se sabe mais em um dia agora pelos Portuguese do que sabia em cem anos pelos Romanos...>>

GARCIA DE ORTA – Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, Goa, 1563

O primeiro planisfério moderno é uma síntese dos conhecimentos e dos interesses do Ocidente e do Oriente.

“...é não só a mais valiosa relíquia da cartografia portuiguesa, mas talvez mesmo o mais precioso espécime da cartografia antiga existente hoje em todo o mundo...” A.Teixeira da Mota

Desenhada em Lisboa, em Setembro de 1502, é a primeira carta a representar as linhas do Equador e dos Trópicos. Apresenta uma apurada visão de toda a África, o mais, o mais antigo esboço cartográfico dos contornos do Novo Mundo (América) e a primeira representação não ptolomaica-tradicional da Ásia.

A novidade oriental reside, no Golfo de Bengala, na Península Malaia e na orla marírima da China. A cartografia destas regiões é acompanhada por uma abundante toponímia com dados sobre a latitude e as mercadorias de interesse. Por exemplo, a legenda junto a Malaca diz: “Malaca”. Em esta cidade há todas as mercadorias que vêem a Calecute. Ous seja, cravo, benjoim, linaloés, e sandalos, e estoraque, e ruibarbo, e marfim, e pedras preciosas de muita valia, e pérolas, e almisquer, e porcelanas finas, e outras muitas mercadorias. Todas na maior parte, vêem de fora contra a terra dos chins”.

Todas estas informações, existentes em Lisboa em 1512, foram obtidas na Ásia, a partir do contacto dos portugueses com a náutica, a cartografia e o comércio orientais.

Diogo Ribeiro (?-1533) é um dos mais célebres geógrafos portugueses. Cartógrafo dedicou-se, também, à construção de instrumentos náuticos e à invenção de uma bomba metálica para extracção de águas nos navios e nas minas. Foi, a partir de 1523, cosmógrafo-mor da Casa das Índias em Sevilha (Espanha).

Os seus planisférios são os primeiros a incluir motivos decorativos científicos e técnicos. Para além dos astrolábios náuticos e dos quadrantes surgem regras de navegação e abundante informação sobre as regiões.

No planisfério de 1525 surge o termo “CHINA” para designar o espaço até então chamado Cataio ou Índia Superior. Nos planisférios de 1529 é registada, pela primeira vez, a ilha de Tamão (Tunmen), na forma de “Ilha da Veniaga” lugar onde, em 1513, desembarcaram os primeiros portugueses na China.

Atenta representação do Sudeste Asiático e, muito em especial, da linha costeira da Península Malaia, de Samatra e das Molucas é umas das características dos planiférios de Diogo Ribeiro Continua........

(Informação e ilustração retirada (com a devida vénia) da “Cartografia do Encontro Ocidente-Oriente”, Comissão T. De Macau para as C. Dos D. Portugueses – sob o Patrocínio da Fundação Oriente, 1996)

CARTOGRAFIA MARÍTIMA - NA EXPANSÃO PORTUGUESA QUINHENTISTA

CARTOGRAFIA

Terceira Parte

O astrolábio é um instrumento indispensável à navegação das naus portuguesas cuja sua utilidade é o de avaliar a posição dos astros e a sua altura acima do horizonte. Gil Vicente já o menciona na Capilaçam, fl.258 vs, ed. De 1562: <<> toda a hora>>.

O poeta dramático viveu na época do desenvolvimento e da expansão portuguesa e, há a necessidade, premente, de serem aperfeiçoados os astrolábios e que como se prevê: uma nova peça surgida, com outra inovação, a notícia corria célere em Lisboa e de que a Gil Vicente não poderia escapar.

Mas, melhor que nós e até porque somos leigos na matéria, António Estácio dos Reis da Academia da Marinha Portuguesa, escreveu dois excelentes trabalhos sobre os Astrolábios Portugueses e, publicados na não menos prestigiosa, publicação´(que ficou pelo caminho) “Oceanos” sobre a direcção de António Mega Ferreira nos números dois (Outubro de 1989) e sete (Julho de 1991), com os títulos genéricos

“Astrolábios Portugueses adquiridos em leilão na Christies” e “Viagem à roda de um astrolábio pintado”

No primeiro trabalho Estácio dos Reis dá conta de um leilão de salvados dos galeões, espanhois, “Nuestra Señora de Atocha”, “Santa Margarita” que naufragaram, em 1622, nas águas do oceano ao sul da América quando se dirigiam carregados de ouro, prata e bronze, para o porto de Sevilha.

É evidente que nesses galeões castelhanos, a mercadoria, nada tinha a ver com Portugal, mas só que os instrumentos, de navegação, onde se incluiam astrolábios, de fabrico português e, com isto havia a preocupação que os mesmos, não fossem parar a outras mãos e retornassem a Lisboa, donde tinham saído e com isto virem a enriquecer o espólio cultural, da época, dos descobrimentos. Assim foi procedida a arrematação, pelo telefone, do Palácio da Ajuda, durante um leilão que se efectuava na casa “Christie’s” de Nova Iorque. Três astrolábios e através das linhas de telefones foram arrematados por 30 mil contos, para figurarem no Museu da

Marinha e cujo o montante, da compra, bem se pode considerar uma excelente aquisição e investimento.

As novas tecnologias de submersão nas últimas décadas, fizeram com que fossem recuperadas grandes riquezas adormecidas no fundo dos oceanos onde repousam há alguns séculos.

Surgem, como é óbvio, os caçadores de tesouros.

Há centenas de naus afundadas devido a guerras, navais, com os piratas, temporais ou encalhes por todos os fundos dos mares dos oceanos.

Entretanto, para a quantidades de barcos naufragados, pouco tesouros foram trazidos à tona e recuperados.

Temos, por exemplo, a “Flor de la Mar” naufragada no Estreito de Malaca, capitaneada por Afonso de Albuquerque e perdida em 1511.

Desde há cerca de vinte anos, correm rumores, que a nau de Albuquerque foi localizada mas o certo é que não há a certeza que isso tenha acontecido. Mas ouçamos Estácio dos Reis:

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Segundo Estácio dos Reis o cartógrafo Diogo Ribeiro na fabricação dos seus astrolábios ter-se-ía inspirado num tábua com a pintura de S.Jerónimo onde junto a outros aparelhos de medição do tempo e certamente de ensaios quimicos se encontra pendurado numa prateleira de livros um astrolábio que se assemelha aos produzidos pelo Ribeiro na década de 1520.

Este planisfério apresenta, como particularidade importante, graduações de latitudes e de longitudes em todas as margens.

O prolongamento da carta pelo lado esquerdo permite apreciar a posição da China em relação à Califórnia e, pelo lado direito, representar completamente o Extremo-Oriente onde, a Costa da China, termina sob o meridiano dos 180º, por alturas de Chincheu. Numa das iluminuras surge o Imperador da China.

Na representação da Insulíndia nota-se, uma maior correcção, no desenho e

situação, da costa ocidental das Celebes do Estreito de Sunda e da ilha de Timor.

É o mais antigo planisfério português feito em Portugal após o de Cantino (1502) já que, o de Jorge Reinel c. 1519 e os de Diogo Ribeiro (quatro de 1525 a 1529) foram traçados em Espanha.

É a mais antiga carta em que o nome Japão vem registado, em ves do tradicional Cipango, e a sua primeira representação cartográfica não fantasiosa fruto das notícias enviadas pelos portugueses, para a Europa, a partir de 1543.

A Arquipélago Japonês surge como uma dupla correnteza de pequenas ilhas que começa na Formosa e que se dirige para leste e para norte até 41º onde está escrito ilhas de Miaco. No norte, junto a uma ilha maior, lê-se Japam.

A legenda de autor deste planisfério diz: “Lopo Homem cosmógrafo , cavaleiro fidalgo de El-Rei Nosso Senhor, me fêz em Lisboa, era de 1554 anos”.

Existe uma representação cuidada do litoral da China e da Península da Coreia. Pela primeira evz é registado o Liampo porto, possivelmente, em frente a Ningpo, usado como lugar de comércio dos portugueses ao longo da década de 40. Também Chinchéu (Ts’iuan/Tcheou(, escala portuguesa de com]ercio entre, principalmente, 1542 e 1549, na província de Fugian, é, pela primeira vez assinalada.

É a segunda vez que surge numa carta a palavra Japão. O arquipélago Japonês aparece ainda deformado como uma espécie de prolongamento da Península da Coreia.

O desenho e a toponímia desta carta são bastante ricos em especial, sobre os estabelecimentos comerciais dos portugueses no litoral da China, e formam um ponto de partida muito seguido, na segunda metade do século XVI, sobretudo, por Diogo Homem filho de Lopo Homem.

A cartografia conhecida de Diogo Homem data de 1557 e 1576 mas, em 1547, já era um conceituado cartógrafo em Inglaterra.

Trabalhando fora de Portugal, em Inglaterra e Itália (Veneza), a sua obra é, maioritariamente, composta por cartas da Europa e do Mediterrâneo.

“ Planisfério de André Homem, 1559. Blibliothéque National, Paris. A legenda de autor, em latin, diz: “André Homem, cosmógrafo lusitano, me fez em Antuérpia no ano de 1559”. Outra legenda diz: “Descrição completa de todo o orbe navegável, com todos os portos, ilhas, rios,promontórios, ancoradoutos, angras e baías, e ainda a medida muito certa dos graus, tanto de latitude como de longitude, de modo a nada faltar que apareça convir a um complexo tratado de cosmografia”.

Diogo Homem, em especial na representação da Ásia, África e América, reproduz a obra do pais, Lopo Homem, acrescentando uma abundante ornamentação.

” Representação dos finais do século XVI, de árvores, plantas e frutos orientais segundo Jan Huygen Van Linschoten na Histoire de la Navigation, Amesterdão, 1638.”

Sebastião Lopes (? – 1596) é um dos grandes mestres da cartografia portuguesa. A sua Primeira obra conhecida, uma Carta Atlântica, datada de Lisboa-1558 mostra que, ainda jovem, era já um cartógrafo consumado.

”Planisfério anónimo, c. 1583. Bibliothéque Nationale, Paris”

A partir de 1582 se não antes,encontra-se a trabalhar para o centro da cartografia portuguesa no Armazém da Índia sendo, ao mesmo tempo, professor examinador de outros cartógrafos, mais jovens, como por exemplo, Pedro de Lemos.

“ Homem observando com balestilha no Regimento da Estrela Polar com Balestilha. Anónimo Atlas português de 1 c. 1550-1560. National Museum, Greenwhich.”

Este planisfério é ocupadol por duas grandes massas terrestes bem definidas e inteiramente separadas: a América, e a Europa com a África e a Ásia. Existe uma

fantasiosa massa de terras árticas, que se estende ao longo da parte superior, formando, com o norte dos continentes asiático e americano as, então muito discutidas e procuradas, passagens do noroeste e do nordeste. Surge a mais antiga representação completa das Filipinas, correspondendo, mais ou menos, à realidade.

“Carta Universal, em projecção especial, na Cosmografia de Bartlomeu Velho, 1561. Bibliothéque Nationale, Paris.”

José MartinsFonte: Cartografia do encontro ocidente-oriente. Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses- Patrocinado pela Fundação Oriente em 1996.