Tuesday, September 1, 2009
Monday, August 6, 2007
Fidalgos da Ìndia, Intriga e Pimenta
"...a Índia de arte que ela estava quando veio Lopo Soares mande fazer boa guerra e logo terá boa paz porque já ninguém não vos a modo que qaulquer cabrão que errar queimá-lo a assá-lo e cruxifica o que os outros que ficaram vos temerem e logo teres a Índia apaziguada que esta paz que Lopo Soares pôs a Índia neste ponto em que ela agora está porque nunca matou nem mandou matar mouro senão cristãos enforcar e cortar mãos..."
José Martins
Sunday, August 5, 2007
A Língua de Camões na Tailândia, Oriente e Índias Orientais
Expandiu-se progressivamente pelas costas ocidental e oriental de África, Índia, Costa do Coramandel, Ceilão, Reino do Pegú, Ilhas de Samatra, Molucas, Timor, Sudeste Asiático, China até ao Japão.
Em todos os portos da Ásia, onde os mercados e a comunidade luso-descendente se situam, a língua portuguesa ali está a servir de meio de ligação entre a França, Inglaterra e a Holanda, quando estes países começaram a descobrir o "f
A Dinamarca, com presen;a pouco significativa na Ásia, vai fazendo comércio e ocupam alguns portos da Costa do Coramandel, que não são mais que pontos de apoio logístico à sua navegação. A França deseja seguir as duas potências, europeias, e balançar esta força, já a dominar o comércio asiático, sem pretender envolver-se em lutas. O território asiático é enorme e ali há muito que comprar e vender.
(1) David Lopes, Antologia da Historiografia Portuguesa II - De Herculano aos Nossos Dias, página 138 - Publicações Europa-América
Monday, July 30, 2007
Ana Leonowens no Bairro Português da Imaculada Conceição
Ana Leonowens é uma figura controvérsia, na década sessenta do século XIX, no Reino do Sião. Ainda na memória de muita gente o filme, musical, o "Rei e Eu", exibido nos anos de 1956, como interpretes principais: o actor Yul Brynner e a actriz Deborah Kerr. A história trazida para o celuloide foi aproveitada do livro "Anna and the King of Siam" e um filme similar a outros vários que sairam da capital do cinema Hollyood, onde a veracidade do mesmos mora ao lado, mas sim o propósito de fazer dinheiro.
As permutas comerciais limitava-se aos países do Sudeste Asiático, Hong Kong, Goa, Hong Kong e extremo Oriente. O Reino do Sião, rico de recursos naturais, tem um novo desenvolvimentos económico pela frente com a chegada de grandes embarcações, alimentadas as caldeiras a carvão.
As relações, diplomáticas e tratados com os países do ocidente com o Sião resumiam-se, apenas, a Portugal vindas dos anos de 1820, de quando foi oficializada a doação do terreno onde ainda hoje se encontram os serviços de Chnacelaria e a Residência dos Embaixadores.
Porém a abastança do Reino do Sião não era desconhecida pelo Reino Unido, França, Holanda e os Estados Unidos. Os ingleses instalam-se com o primeiro consulado em 1856, depois de negociações, iniciadas, pelo Governador de Hong Kong John Bowring que viria a ocupar o posto de embaixador, não residente, em Banguecoque.
Os missionários protestantes americanos, conhecedores das bases da religião católica introduzida pelos missionários do Padroado Português do Oriente, nas primeiras décadas do século XVI e a presença dos missionários das Missões Estrangeiras de Paris, em meados do século XVII, em 1828 os primeiros chegam a Banguecoque e cinco anos depois instalam-se, construindo uma residência de madeira, no terreno do consulado de Portugal, cujo cônsul, na altura, era Marcelino Rosa (A única informação que conhecemos sobre apresença dos missionários americanos presbiteranos no espaço do consulado português é do livro "Residence in Siam - At the Capital of the Kingdom of Siam (1850), LONDON: Office of the National Illustrated Library, 227, Strand, 1852, escrita por Frederick Arthur Neale.
Entretanto durante os primeiros 18 anos de permanência no Sião, os missionários americanos não conseguiram converter ao protestantismo uma alma que fosse. Eram no entanto pessoas altamente instruídas e relevantes os serviços prestados à Corte do Sião, no campo da medicina e numa altura em que em Banguecoque grassava a cólera, a malária, e outras pandemias tropicais; fundam a a primeira tipografia que imprime o primeiro jornal em caracteres do alfabeto siamês e inglês. S. M. o Rei Mongkut aprendeu a língua inglesa, muito antes de ser entronizado Rei com os missionários americanos que a dominava e escrevia perfeitamente e viria a trocar, após sentado no Trono, diversa correspondência com W.J. Butterworth, Governador de Malaca e Singapura.
S.M. o Rei Monkgut é um "gentleman" nos termos com que se dirige a W.J. Butterworth. No decorrer da prosa vamos encontrar um monarca extremamente culto e o interesse em conhecer as obras de arte expostas no Museu de Singapura.
Em 18 de Julho de 1854 escreve uma carta, diplomática, a Sua Excelência Jonh Bowring, ao serviço da Raínha Victória e o Supremo Governador de Hong Kong, onde lhe conta a sólida amizade com o já seu amigo Coronel Butterworth, Governador de Malaca e Singapura. Era o príncipio do reatamento de relações e a concretização de um Acordo entre o Reinos do Sial e da Inglaterra.
Em 27 de Março de 1855 Jonh Bowring, de Honk Kong está a bordo do vapor "Rattler" na embocadura do rio Chao Prya e na sua primeira visita a Banguecoque. S.M. o Rei Mongkut enviou o seu privado Ministro Nai Kham Nai Snong, em seu nome, dar-lhe as boas-vindas e como presente: deliciosas frutas do Sião. E, recomenda-lhe, que o vapor "Rattler" navegue o mais pronto possível nas águas do Chao Prya lance ferro em "Parnam" onde o iria receber num espaço que antes tinha mandado decorar.
Ficaria, com a visita do Governador de Hong Kong, alinhavado, o primeiro Tratado com a Inglaterra e não tardariam outro com os Estados Unidos (Nota do autor: (Os Tratados entre o Reino do Sião e países estrangeiros eram redigidos na língua portuguesa, siamesa e na do país que tinha efectuado o acordo. A língua portuguesa, desde a chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, foi a franca desde o médio Oriente, Extremo Oriente e Índias Orientais)
Em 17 de Julho de 1856, S.M. o Rei Mongkut enviava uma carta ao primeiro Cônsul de Inglaterra, C.B. H Hillier Esqu. que transcrevemos algumas passagens:
"Sir,
I am indeed doing ny attention to let you have proper place for the Bristish Consulate.
The greater part of the piece of land in neighbouring place of the Portuguese Consulate is belonged to many Malayan and Burma people who are very common native inhabitants here. I will compel them all owners of that part of land to sell their land to you in costumary price of every one Tical for every one square fathom, according to the modern Siamese law and Roay custom, or litle lesseing for the part thereof, which were or are useless to the possessors before. But I am in difficulty for a part that land wished and pleased by you, in wich the limekiln is inclued or enclosed, as the said part of that belonged to His Excellency Phya Bharabal Sombatta, who is a noble Minister of His Majesty the Second King, and not mine, so his land is in right to be dependant to the Second King. I have no right to compel the owner or possessor thereof to sell to you in the foresaid price".
Anna Leonowens não foi a primeira professora de inglês no palácio de S.M. o Rei Mongkut. Onze anos antes de Anna chegar a Banguecoque, já esposas de missionários da Missão Americana: Matton, Jones e Bradey leccionaram inglês a algumas senhoras, durante dois dias por semana, na parte de manhã.
Entretanto S.M. o Rei Mongkut refletiu e pensou que as três senhoras, talvez, incutissem nas alunas os preconceitos da religião cristã protestante. Ao mesmo tempo, embora com conhecimentos da língua inglesa não se encontravam habilitadas com experiência para um ensino correcto e eficaz.
Anna Leonoewns foi contratada através do agente, de S.M. o Rei Mongkut, Tam King Ching em Singapura e por sugestão do gerente da Companhia do Borneo, John Adamson. Entretanto Sua Majestade recomendou a Tam King Ching: "que pretendia uma professora especializada no ensino da língua inglesa, conhecedora de ciência e literatura e não viesse com o propósito de conversões ao cristianismo.
Anna, em companhia de seu filho Louis vivem fora do palácio mas todas as manhãs caminham no "Nang Harm" (ruas dentro do palácio e onde vivem as mulheres, concubinas, dançarinas e outras senhoras que trabalham no palácio real). Anna é uma mulher inteligente e foi lhe fácil assimilar a língua siamesa e penetrar no segredo da vivência dessas mulheres entre-os-muros. Vive no reinado e das glórias de sua raínha Victória, de Inglaterra. É, assim, uma mulher arrogante e a sua prosa escreve-a em estilo de novela e ficção. Fora da Corte do Sião volta em escritora e escreve por dinheiro.
Pouco se sabe das suas orígens que as vai escondendo, que as vai ocultando, conforme os altos e baixos de sua vida É uma senhora, jovem viúva de três décadas de vida.
Embora de jovem tivesse visto o filme, em Portugal o "Rei e Eu", que de facto me fascinou os cenários e as interpretações de Yul Brinner, com a sua figura irrequieta de cabeça careca e da actriz Deborah Kerr, uma mulher bonita e a desempenhar o papel de uma senhora rebelde e no constante advertir Sua Majestade o Rei Mongkut.
Certo, também, que mesmo vivendo em Banguecoque havia uns nove anos, nunca me tinha enfronhado na vida e obra do Grande Monarca do Reino do Sião, Sua Majestade o Rei Mongkut, o iniciador de uma nova dinâmica que levaria a Tailândia a um país moderno nos dias hoje. Graças à aquisição do "Romance do Harem" acabei por comprar todos livros que me iriam informar acerca da vida e obra do Grande Rei que traçou um novo futuro de desenvolvimento para a Tailândia. Seu filho o Rei Chulalongkorn, seguiu suas linhas de pensamento e o actual Rei da Tailândia Sua Majestade Bhumibol Adulyadej, continuou a seguir a mesma orientação de seu avô e bisavô.
O Bairro Português da Imaculada Conceição (Samseng nome correcto do local), a cerca de uns 5 quilômetros do Grand Palácio e ao norte, era um local que a Anna Leonowens, amiudadas vezes visitava. Refere-se que ali teve uma amiga, luso descendente, de nome Rosa Hunter. Ora a Anna, no relato que faz ao bairro português, não lhe dá as melhores referência e nos dá a convicção que a Anna, nem está bem com ela tão-pouco com as pessoas que a rodeia e, uma, mulher irreverenta.
A Anna foge à realidade e como acima já o afirmamos, depois de ter perdido o emprego (nunca se chegou a conhecer a razão) na corte de Sua Majestade o Rei Mongkut, dedicou-se à profissão de escritora, nos Estados Unidos e neste país encontrou um "filão de ouro" que devido ao desconhecimento, das pessoas, do Reino do Sião, ela explorou-as com a "mentira" e provocou dano à "Corte" do Reino do Sião.
A Anna tornou-se uma "novelista", que dado à incredibilidade do povo americano, na altura e parco conhecimento dos países asiáticos era solicitada para proferir conferências perante um público "embasbacado" a deliciarem-se com as suas, bem formalizadas, "petas", orientais.
Dramatiza a triste história da Rosa Hunter, nativa do Sião, casada com Roberto Hunter (1), secretário privado de Sua Majestade o Rei Mongkut. A Rosa deu-lhe dois filhos que lhos tinha "raptado" de quando crianças e as fazer embarcar para a Escócia a fim de serem educados sob a influência da Igreja Livre da Escócia. Rosa vivia em constantes conflitos com o marido Roberto Hunter que terminou em separação.
Em curtos intervalos Anna Leonowens visitava Rosa e escrevia-lhe cartas aos filhos, em inglês as quais ela lhas ditava na língua siamesa. Anna Leonowens navegava, num pequeno caíco de dois remadores desde o embarcadoiro, nas traseiras do Grande Palácio até ao bairro da Imaculada Conceição.
Descreve o bairro de ruas estreitas, sujas e não lhe dá o verdadeiro nome ao bairro, mas o de Santo Tomás. Não simpatiza com a religião católica e termina a "novela": que partiu triste pela história contada pela Rosa Hunter e pelas condições, precárias, de vida encontradas.
O " Romance do Harem" foi editado, pela primeira vez na cidade de Boston em Dezembro de 1872 e 15 anos depois de Anna Leonowens ter deixado o Sião. Tudo que escreveu (embora os locais existissem) foi pura ficção. A novelista, já famosa, de fértil imaginação, procurou ludibriar e explorar a credibilidade dos seus leitores.
José Martins
(1) Sobre Roberto Hunter Frederick Arthur Neale, refere o seu nome, em várias, passagens, na sua obra "Residence in Siam" e, pela tarde, reunia-se com outros amigos, (incluindo o cônsul português Marcelino Rosa) estrangeiros à sombra da árvore tamarindeira, do terreno do consulado de Portugal para o cavaco quotidiano. Isto nos anos de 1850. Porém no livro "Romance do Harém", há uma referência a Roberto Hunter pela pena de William Bradley que nos diz: Roberto Hunter Júnior, privado Secretário do Rei, bebia muito e numa noite acabou por cair, quando embriagado, na doca onde morreu afogado, em 1865. Seu pai, Roberto Hunter, deixou o Sião em 1844. Era um escocês que veio para Bangkok em 1820. Foi casado com uma senhora, natural de Portugal, de nome Angelina. Enviou para Inglaterra o seu filho mais velho (o próprio) Roberto para ali ser educado. De facto o Roberto Hunter existia e como os ingleses, residentes, eram escassos, certamente que Anna Leonowens (nos leva a crer) que se relacionou com o Hunter. Encontrava-se no Sião quando embriagado tropeçou e foi cair nas profundezas da doca do porto de Banguecoque e morreu. Neale de facto refere-se ao Hunter que era o administrador do porto de Banguecoque. A história da Rosa Hunter no bairro português da Imaculada Conceição não é mais nem menos que uma história inventada, da fértil, imaginação, de Anna Leonowens, que escrevia para viver. Temos até dúvidas se a Rosa Hunter existia no Bairro Português da Imaculada Conceição. É que temos a cópia de um livro, na nossa biblioteca particular, de Assentos de Nascimento, Baptizados, Casamentos e Óbitos que foi iniciado em 1868. Porém, como é natural não se encontra designado o assento de nascimento, baptizado ou casamento de Rosa Hunter. Mas pelo menos deveria estar lavrado o Assento de Óbito, dado que o livro encerra em 1901. Impossível a Rosa Hunter encontrar-se entre o número dos vivos, no princípio do século XX, no Bairro Português da Imaculada Conceição em Samsem.
Thursday, July 26, 2007
Fernão Mendes Pinto na Ásia
Terminou este testamento de família e morre cinco anos depois. Passados trinta anos a obra foi publicada e, quantos cortes teriam sido feitos, pela foice severa de gume afiado do Inquisidor-mor, antes de ter sido conhecida do público. Assassinaram um relato impressionante, daquilo que Pinto viu e nunca antes escrito por cronistas seiscentistas portugueses ou estrangeiros. Conheceu no Oriente Francisco Xavier, foram, amigos e emprestou-lhe dinheiro para que o "Apóstola das Índias" construisse a primeira igreja no Japão.
Fernão Mendes Pinto foi irmão jesuita, mais tarde expulso da congregação fundada por Inácio de Loiola e nunca aclarado o motivo do afastamento. Aventaram a hipótese que Pinto era "marrano" (1), ou pelos "prazeres carnais", que certamente teve durante as suas aventuras orientais.Pinto usa a prudência ao escrever a sua obra em não designar as suas aventuras de amor no Oriente. Entende-se que o cronista não pretender chocar a família dando-lhe conhecimentos de suas paixões amorosas e exóticas no percurso de sua caminhada pela Ásia e Oriente. Paixões que atingiram muitos portugueses depois da era da expansão, entre eles: o poeta Luis de Camões, o escritor Venceslau de Morais, no Japão e o poeta Camilo Pessanha em Macau. Outros, no presente, anónimos entre os quais eu por exemplo.Pinto foi ferido pela seta do "Cupido" na Ilha da Espingarda, Tenagashima, no Japão.A lenda ficou. Todos os anos, nos festejos anuais, realizados nesta ilha em honra da espingarda portuguesa, introduzida por Pinto logo que ali chegou com credenciais de embaixador em 1543.
A festa é dedicada a Portugal. Há disparos da espingardaria lusa do século XVI, quando ainda o disparo da bala não era accionado pelo gatilho, mas incendiada a pólvora com o morrão da mecha.
Imagens: Portugal 450 Anos de Memórias Japão coordenação e investigação de Gonçalo César de Sá - Embaixada de Portugal no Japão - 1ª edição 1993
Thursday, July 19, 2007
Embaixador João Brito Câmara: Relações Históricas - Portugal - Filipinas
Dentro do contexto descrito, "aos 22 de Janeiro de 1587, Filipe II de Espanha recomendava ao Vice-Rei da Índia portuguesa, D. Duarte de Meneses, que se evitasse o comércio dos espanhóis com a China e as Molucas, bem como em contrapartida, o tráfico dos portugueses de Macau com as Filipinas". 16 Mas o Vice-rei, muito realisticamente, respondeu ao monarca que era impossível impor o cumprimento daquela determinação atenta a distância a que ficava de Goa, capital do Império das Índia.Mais tarde o Vice-rei queixava-se a Madrid de que uma nau espanhola fora a Macau, carregada de prata do México.
Para estabelecer, ao menos, um certo equlíbrio o Vice-rei pede autorização ao rei para que os navios de Macau possam negociar as suas mercadorias no México. Aparentemente não chegou qualquer resposta mas é evidente que a proposta ia contra a política espanhola. De Macau seguiram para Manila principalmente a loiça chinesa e sedas e, de Manila, vinha arroz para a população e, mediante o "galeon" de Acapulco, a moeda em prata, a pataca, ainda hoje o nome da moeda que circula em Macau.
13. Pag.225 "Trapobana e mais alem..." do Padre Benjamim Videira Pires, S.J. 14. Pag.82, 1º vol. de "The Philippines Through the Centuries", de Antonio M.Molina, 1ª edição, 1960. 15. Pag. 91, 1º vol. de "The Philippines Through the Centuries", de Antonio M. Molina, 1ª edição, 1960. 16. Pag. 11 da obra citada " A viagem de comércio Macau-Manila".
CAP. II
SECULO XVII
No jogo internacional vieram, contudo, intervir outros factores, à medida que o tempo corria. Potências com interesses mundiais eram apenas Espanha e Portugal. Com a união pessoal das duas Coroas os inimigos de Espanha passaram a ser também os de Portugal. Filipe II tentara dominar a Inglaterra - com uma larga participação portuguesa de excelentes navios - mas falhara. E o episódio, em 1588, da "Invencível Armada". Desde o sec. XIV que mantinhamos uma aliança com a Inglaterra mas, agora, estavamos do lado contrário, o que ia contra a nossa tradição diplomática.
O grande inimigo, contudo, que o Império português teve de enfrentar veio da Holanda. Durante cerca de 71 anos (1598-1669) portugueses e holadeses lutaram desde o Brasil, Angola, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Índia, Ceilão, Malaca, Macau, Molucas e Timor. Pode ser considerada uma 1º Guerra Mundial embora protagonizada apenas por três potêncais pois deveria incluir a Espanha. Portugal manteve o imenso Brasil, Angola, Índia mas perdeu numerosas posições no Sudeste Asiático.
Macau que há largas dezenas de anos era um simples entreposto de comércio, não fortificado, teve de erguer defesas contra os ataques holandeses, ao longo da Praia Grande, no Porto interior e nas colinas mais elevadas da cidade. Com a excepção do forte do Bomparto, situado naquele primeiro local, as outras fortalezas estavam ainda em construção quando os holandeses atacaram em 24 de Junho de 1622. Mas sofreram uma pesada derrota às mãos dos portugueses, comandados por Lopo Sarmento de Carvalho, perdendo 330 homens, mais 500 espingardas, 1 canhão e um navio de guerra.
A ameaça, contudo, permaneceu por muitas mais dezenas de anos.Enquanto Portugal e Espanha estiveram unidos pela mesma Coroa - o que sucedeu até 1640 quando Portugal retomou a sua independência com as Casa de Bragança, seguida de 28 anos de luta militar e diplomática com a Espanha até à paz final assinada - em 1668, - as Filipinas e Macau colaboraram mútuamente "nos campos militar e político" 17 contra os ataques da Holanda e, mais tarde, da Grão Bretanha. Por exemplo, Diogo Vaz `Bávaro, em 1621, foi a Manila e adquiriu, "por meio de sua indústrias" 6 peças de artilharia que levou para Macau, sendo colocadas nas novas fortificações.
No campo comercial, as determinações reaos dos Filipes "reforçarem a posição portuguesa que fundaram, em 1606, uma instituição lusitana característica, uma Misericórdia, sucursal da de Lisboa. Misericórdia era um hospital destinado a socorrer doentes e pobres. As primeiras haviam sido lançadas pela Raiha D. Leonor no século XV.
17 Obra citada Padre Videira Pires que serve de base para os séculos XVII e XVIII, por conter abundante documentação sobre estes períodos.
Como escrevemos mais acima as leis e determinações eram uma coisa, a realidade económica outra bem diferente. Basta ver que de Macau foram a Manila "em 1604, cinco navios, 1605, dois, 1606, um com "bordados do Japão", 1612, sete com mercadorias e escravos, e 1620, cinco navios" 17 . E " Lourenço de Liz Velho comunicou, em 1621, que o comércio de Macau com Manila trazia aquela cidade portuguesa o rendimento anual de 60.000 cruzados em frete.
É claro que um tal estado de coisas iria conduzir lógicamente à ideia que aquele comércio devia ser legalizado mas, de acordo com os comerciantes de Macau, com um sentido único irem a Manila e fazerem lucros sim mas que os espanóis não viessem à China "porque como trazem cópia de dinheiro (em prata e oiro), logo se altera o preço das fazendas (em Cantão e Macau)". Continuando-se com a mesma orientação " em 17 de Abril de 1624, o Vice-Rei de Goa e o seu Conselho rejeitaram uma petição do Senado de Macau para que as viagens de Manila fossem oficialmente sancionadas e decidiram que a proibição existente se devia cumprir rigorosamente.
O Governador e comerciantes de Macau não prestaram atenção a esta decisão e o comércio com Manila foi desenvolvido pelo novo Governador da Cidade do Nome de Deus até atingir um grau sem precedentes. Em 1628, a viagem de Manila rendeu a Macau 40 mil xerafins, pagando-se a maior parte das dívidas..."Em 1626, o novo Governador das Filipinas, Juan Niño de Tábora chegou a Manila com novas tropas e algum dinheiro. Mas a situação financeira era séria porque o rendimento público ascendia a 150.000 pesos e as despesas obrigatórias a 550.000.
Primeiro solicitou ao Vice-rei do México que lhe enviasse o dinheiro necessário. segundo, pediu para ser substituído caso não viesse auxílio. O Governo endividado, as tropas sem paga durante meses, sem solução à vista, os conselheiros de Filipe IV proposeram que se abandonassem as Filipinas ou que fossem trocadas pelo Brasil, pertença da Coroa portuguesa. Mas Filipe IV recusou porque aos seus antepassados havia sido confiada a missão da conversão ao catolicismo da população filipina e ele não queria falhar neta missão. 18 No começo de 1637 o Governador das Filipinas, Hurtado de Corcuera, dirigiu uma expedição contra o Sultão Kudarat de Mindanao.
É curioso que, ao chegar ali, o seu mais valioso conselheiro militar foi o Padre português, Agostinho de São Pedro que, devido às numerosas lutas que travara com o Sultão ganhara o alcunha de "Padre Capitão"... Contradizendo os factos da real vida económica, Filipe IV, de Espanha, em 1639, proibiu, por intermédio do Vice-Rei português de Goa, o comércio de Macau com Manila. E porquê? Para evitar que Manila se esvaziasse da prata vinda do México em troca das mercadorias chinesas - e outras, por exemplo magníficas peças de artilharia fabricadas em Macau 19 por Manuel Tavares Bocarro - que os comerciantes daquela cidade vendiam aos espanhóis da Filipinas.
E o Governador Hurtado de Corcuera até levou aparentemente a sério a ordem real: "Não permitirei aos portugueses que venham a estas ilhas, para que se não quebre o comércio (indirecto) dos chineses. Obedecerei a este decreto pontualmente, conforme o seu teor..." 20.
17 Obra citada do Padre Videira Pires. 18 Pág. 130, 1º vol. de " The Philippines Through the Countries", de Antonio M.Molina 1ª edição, 1960. 19 Duas delas encontram-se no Museu de Port Elizabeth, África do Sul, uma em perfeito estado de conservação, como pude observar em 1996. 20 Obra citada do Padre Videira Pires.
Foi este mesmo Governador das Filipinas que soube da revolução portuguesa contra Filipe IV em Dezembro de 1640 e do pronto estado de guerra entre Portugal e Espanha. Espanha naquele momento, também tentava dominar a Catalunha igualmente em revolta contra Madrid e a política centralizadora do Conde-Duque de Olivares (a). Certo é que os poucos portugueses que viviam em Manila correram pelas ruas da cidade aclamando o Duqe de Bragança como D. João IV de Portugal.
Hurtado de Cocuera mandou chamar os três Procuradores de Macau e obrigou-os a assinar um auto de submissão daquela cidade à Coroa espanhola. Mas cometeu o erro de enviar os três Procuradores a Macau que logo explicaram ao Governador Português, D. Sebastião Lobo da Silveira, a razão pela qual haviam assinado aquele auto - o uso da coacção. Claro que ao longo dos anos, muitos mapas onde se viam as Filipinas foram sendo desenhados pelos cartógrafos portugueses.
Mas gostaria de chamar a atenção para a magnifica carta aqui incluída, anónima, de cerca de 1640 e que se conserva no Palácio dos Duques de Beaganças em Vila Viçosa. A guerra de Portugal com a Espanha durou, como dissemos, 28 anos e, ao mesmo tempo, os holandeses continuaram a guerriar os dois Estados peninsulares. Malaca caiu 1641, o que levou os portugueses daquela cidade a estabelecerem-se em Macassar. Em 1651, havia 3.000 católicos nesta cidade. Devido ao estado de guerra entre Portugal e Espanha, Macau serviu-se de Macassar para continuar o comércio indirectamente com Manila.
E, assim, todos os anos Manila recebia cinco navios mandados de Macassar. Só depois de 1668 e da paz firmada com a Espanha é que se retomou o comércio directo de Macau com Manila. Em 1672 um navio Macaense aportou a Manila, seguindo-se outros nos anos sucessivos. Por exemplo, em 25 de Novembro de 1695, um barco de Manila, comadado pelo capitão D. António de Bozarte, que rendeu de direitos o pagamento de mil pesos, entrou no porto de Macau. " A Câmara aceitou o dinheiro, acrescentando que a prata embarcada pagaria o mesmo que a dos barcos portuguese, isto é 2%.Este comércio da prata, escrevia-se na época, "é a coluna que sustenta Macau".
Fechado o tráfico com o Japão "só nos resta o porto de Manila, que nos impede de irmos a ele com o nome de Portugueses, mas pode-se ir lá debaixo de outro pretexto". Diriam aos Espanhóis que iam da China... Outro exemplo. Em 1696 o Senado de Macau "decide enviar a Manila, em negócio, a nau do capitão Bernardo da Silva, exigindo-lhe que não traga missionários a bordo para China, como ordenara o Vice-rei". Em 1698, o Governador-Geral das Filipinas, Fausto Cruzat y Gôngora pediu auorização a Macau para que fosse enviado um navio de Manila se modificassem mais favorávelmente o pagamento dos direitos com o que o Senado concordou.
(a) Um escritor célebre português, D.- Francisco Manuiel de Melo, não só tomou parte nesta guerra como escreveu "História de los movimientos y separacion de Cataluña"
CAP. III
SÉCULO XVIII
Em 4 de Abril de 1705 chegou a Macau vindo de Manila o legado Pontíficio, Charles Thomas Maillard de Tournon que, nesse mesmo ano, entrou na Corte do Imperador manchu K´ang Hsi. 24 O próprio Imperador escreveu a seu respeito: "Era uma pessoa com preoconceitos e em quem se não podia confiar, misturando o direito com o torto". A sua missão falhou, deixando o Imperador ofendido e desconfiado sobre os objectivos do Papa que, segundo de Tournon, queria ter uma "Superior" em Beijing que supervisionasse a actividade dos religiosos.
Cinco anos depois, 8 de Junho de 1710, de Tournon falecia, nesta cidade de Macau. (1) Ainda no mesmo Imperador, em 1717, foi "transmitida pessoalmente pelo Vice-rei de Cantão" ao Senado de Macau uma ordem onde se dizia que Macau podia comerciar com as 5 províncias costeiras da China e mares de leste mas não com os "Mares do Sul, Batávia (actual Jacarta) e Manila e mais lugares"". 25 Mas o jesuita português Padre Tomás Pereira que, vivia na Corte de K´ang-Hsi - e a quem este se refere nos seus escritos - conseguiu obter que a lei não se aplicasse a Macau e Macau continuou durante mais quatro anos com o "monopólio do comércio externo da China, sobretudo com Batávia". 26
Macau, Solor e Timor dependiam do Vice-rei português de Goa que, de vez enquando, emitia ordens para a Cidade do Nome de Deus. Assim, em 14 de Maio de 1722, o Vice-rei "autoriza Cosme Serrão a realizar a viagem de Manila, directamente a Cantão, sem passar por Macau, recomendando que não seja impedido, antes auxiliado pelas autoridades desta cidade. "É claro que o Senado pretendeu, ao contrário do que determinava o Vice-rei, dissuadir Cosme Serrão de ir "directamente a Cantão", passando por cima de Macau.
Mas não o conseguiu.27 É curiosos apontar que o pataxo macaense "Jesdus, Maria, José" 28 chegou a Macau em 1 de Novembro de 1723, levando a bordo D. Frei Sbastian de Foronda, eleito Bispo auxiliar de Cebu e que ia sagrar-se aquela cidade. A Sala Capitular de Manila recomendou ao Senado macaense D.Frei Sebastian. Macau, como temos podido avaliar, dependia essencialmente do comércio marítimo.
Sem agricultura ou indústria, a função de intermediário fazia a sua riqueza. Ora entre 1735 e 1754 perdeu, "sobretudo em naufrágios, mais de onze navios" 29. A situação económica era muito séria. A população ascendia a 5.212 cristãos e 8.000 chineses e, dos peimeiros, apenas eram portugueses nascidos no reino 90. Os navios dos armadores macaenses faziam as carreiras de Manila, Timor, Batávia, Malaca, Madrasta, Calecute, Goa e Surrare.
O Crescimento do poder holandês e do inglês na vasta área do Sudeste Asiática veio impulsionar D.João V, a proibir, em 1746, que algum estrangeiro se estabelecesse e pudesse comerciar em Macau, repetindo, de resto, disposições antigas.
24 Pag. 75 e seguintes de "Emperador of China - Self Portrait of K´ang-Hsi" por Jonathan D. Spence, 1977. 25 Pag. 45, obra Padre Vieira. 26. Idem pag. 46. 27 Idem pag. 48. 28 Idem pag. 49. 29 Idem pag.60
Mas abria uma excepção barcos vindos de Manila podiam comerciar livremente e, ainda por cima, pagariam menos direitos, 1,5%, enquanto que os portugueses e habitantes de Macau teriam de pagar 2%. Seria isto devido à maior aproximação de Portugal e Espanha pois a filha de D.João V, a ilustre e culta D. Bárnara de Bragança havia casado com o Rei espanhol Fernando VI e a irmã deste, Marianina com o futuro D.José I de Portugal. Em 1750, tentando reforçar a posição portuguesa proibia-se a venda de navios macaenses a estrangeiros.
Quando eclodiu a Guerra dos Sete Anos na Europa e os Reis Bourbons assinaram o Pacto de Família, em 1761, os ingleses não perderam a oportunidade de atacar as Filipinas e de ocupar manila em Outubro de 1762. Em 16 de Dezembro deste ano, o Senando de Macau avisa o Vice-Rei português de Goa da queda de Manila e o Vice-rei ordena que Macau "tenha as fortalezas apetrechadas e guarnecidas", 30 para a eventualidade de um ataque britânico.
Um episódio um tanto dramático teve também lugar em 1762. Os jesuítas haviam sido expulsos de Portugal, em 1759, por ordem do Marquês de Pombal. A Ordem tratou de pôr a salvo os seus arquivos. E, assim, em 1761, no barco do capitão espanhol D. Antonio Pacheco, o jesuíta português João Álvares meteu em quatro caixas chinesas, forradas de papel vermelho da China, nada mais nada menos que o arquivo da Companhia de Jesus no Japão desde o ano de 1549 a 1671 e endereçou-a ao Padre Ignacio Malaga, Procurador da Província dos Jesuítas nas Filipinas.
Depois de várias aventuras, uma parte da documentação, 62 cadernos originais, foram parar à real Academia de História de Madrid onde ainda hoje se encontram. Instalados com segurança em Bengala, os ingleses lançaram um intenso comércio com Macau e as Filipinas. 31 Neste fim do século XVIII e princípios do XIX "havia, em Macau, vinte e quatro barcos certos (dois dos quais brigues de guerra) e provávelmente mais seis.
Comerciavam principalmente com o Sião, Lisboa e Brasil". está hoje de moda e e´uma realidade, ao mesmo tempo, falar-se da globalização da economia mas, como vemos, Portugal já a pusera em prática porque compreendera que a troca de bens e de capitais necessitam de ter uma dimensão mundial. O comércio do célebre "galeon" da viagem a Manila - Acapulco constituiu um monopólio da Coroa espanhola desde 1565 a 1785 altura em que foi autorizado a fundação da real Companhia Filipina. parecia que a actividade comercial se iria expandir mas a independência das colónias espanholas da América, designadamente do México, vieram põr termo a uma tradição multisecular. Em 1815 chegou a Manila o último "galeon".
30 Pág. 65, obra citada padre Videira Pires. 31 Idem, pág. 85.
CAP.IV
SÉCULO XIX
O Dr. José Rizal deixou Manila, a bordo do vapor "Melbourne", em primeira classe, em direcção a Hong Kong, no dia 18 de Outubro de 1891. Um mês e dois dias de navegação e chegou aquela cidade. Augusto Coates, falecido neste ano de 16 de Mãrço de 1997 nos arredores de Lisboa, Sintra, para onde se retirara depois de muitos anos vividos pricipalmente nos antigos domínios britânicos do extremo Oriente, incluindo Honk Kong onde havia sido, de 1949 a 1957, funcionário do British Colonial Service, descreveu como se estruturava a sociedade de Hong Kong no tempo em que o Dr. José Rizal ali chegou pela segunda vez em 1891.
E é curioso que esta estrutura coincidia com os níveis da montanha: quase junto ao mar os chineses, a meio um variado conjunto de "arménios", parses, judeus, euroasiáticos, portugueses e indianos". 32 Acima dos 450 pés únicamente os britânicos, separados socila e políticamente da restante população por um sólido racismo. Os portugueses a que se refere Coates eram os provenientes de Macau e descendentes daqueles que se haviam estabelecido ali, em Timor, em Malaca ou na Índia portuguesa. "For the Filipino exile in Honk-Kong the Portugueses level was their natural home.
There were language affinities. In Protestant Hong-Kong they were Catholics. Like the Hong-Kong Portuguese, the Filipinos, though in many ways extraordinary Europeans, were Asians. The Portuguese were those whom they naturaly moved in sympathy. It was a good land to be in, too - clean, healthy, with spacious homes and pleasant neighbours", 33 O mais importante membro desta comunidade portuguesa era Delfino Noronha.
Vivia em Zetland Street e a sua casa consituia um ponto de encontro para o grupo que referimos. Era impressor e a sua firma, Noronha & Co., publicava o Hong-Kong Government Gazette. " A sua companhia era provávelmente a melhor da colónia e ele mesmo uma conhecida figura do Jockey Club e a principal força na resolução de todos os assuntos que preocupavam os portugueses. Mas se reunia à sua volta os intelectuais não era um deles. Pertencia, antes, ao mundo social e desportivo". 34
32 "Rizal in Honk-Kong, por Austin Coates, publicado a págs. 287 dos "Proceedings on the International Congress on Rizal", obra citada. 33 Pag 287, obra citada. 34 Pág. 288, obra citada.
Poucos dias depois da chegada o Dr. José Rizal conheceu Delfino Noronha e, por seu intermédio, põde alugar uma casa em Rednaxela Terrace. V~e-se que o nome é o de Alexandre escrito ao contrário. O Dr. Rizal alugou-a à família Basto, portugueses de Macau. Algumas semanas mais e conseguiu um local de trabalho vantajosamente situado no coração da cidade 35 nr. 2, Duddell Street, a dois passos da Queen´s Road Central, a mais importante artéria da cidade. A seguir instalou-se no nr. 5 da Aguilar Street.
O encontro com Delfino Noronha ficou a dever-se a José Maria Basa, exilado filipino e pessoa bem colocada na sociedade. As afinidades entre Delfino Noronha e o Dr. José Rizal eram poucas e seguramente não de carácter intelectual. Todavia, o Dr. Rizal frequentou com assiduidade a sua casa. Ali conheceu um médico, o Dr. Lourenço Maria Marques Pereira, filho de portugueses e nascido em Macau, na freguesia de Santo António em 7 de Setembro de 1852 36.
Tinha este quase trinta e nove anos de idade e descendia de uma família importante. Seu pai, o Comendador Lourenço Marques havia comprado, em Macau, a casa e os belos jardins onde vivia o agente principal na China da inglesa "East India Company. Nos jardins existia a chamada gruta de camões, onde o maior poeta português Luis Vaz de Camões, teria escrita uma parte de "Os Lusiadas" em 1557.
O Comendador Lourenço Marques iniciou o culto de Camões sendo, hoje, aquele jardim uma atracção turística muito popular devido à sua beleza e à paisagem que de lá se pode avistar porque fica no cimo de uma colina. O segundo Governador de Hong-Kong, Sir Jhon Davis, escreveu para o Comendador Marques um poema em latim em honra de Camões e o quarto Governador, Sir John Bowring, um soneto "Gema da Terra do oriente".
Podem hoje ser lidos naquele local inscritos na pedra. É um lugar tarnquilo onde os velhos chineses conversam e jogam e numerosas crianças brincam com enorme alegria. Por vezes, vem alguém com uma gaiola com passarinhos para este disfrutarem da paisagem verde e da aragem fresca... O Comendador Marques recebia, em sua casa, todas as personalidades importantes, incluindo o Duque de Edimburg, um dos filhos da Rainha Victoria. 37
Seu filho Lourenço, depois de estudar no Seminário de S. José, em Macau, foi mandado para Lisboa para o Colégio dos Jesuítas, em Campolide e de lá para o King and Queen College de Dublin, onde se formou em Medecina em 1877, aos 25 anso. Em 1887 estava, de novo em Macau e logo partiu para Hong-Kong onde passou a exercer Medicina. Espírito inquieto e investigador, havia publicado em Hong-Kong, nove anos antes da chegada pela segunda vez do Dr. Rizal " A realidade do darwinismo", e, dois anos antes, "Defesa do darwinismo: refutação de um artigo no jornal "Catholic Register".
Escreveu também sobre Luiz de Camões. Vê-se que, ao defender as ideias de Darwin se colocava contra a Igreja Católica da altura. Era republicano mas naturalizou-se inglês, uma aparente contradição. Coleccionador, enviara um conjunto de objectos do extremo Oriente para a Sociedade de Geografia de Lisboa, da qual era sócio, e que passaram a constituir a "Sala Lourenço Marques". No seu testamento deixou uma enorme biblioteca ao Clube de Macau. Como vários dos seus irmãos permaneceu solteiro.
Personalidade original, eis como Austin Coates o apreciou: "Essencialmente um homem de ideias, ao longo da sua vida procurou sempre algo de prátcio para põr em execução. Mas faze-lo nos relatórios médicos na prisão, como por vezes, o intentou não era a forma ideal de o conseguir. Funcionários britânicos que dele tinham algum conhecimento pensavam simplesmente que era um pouco excêntrico. E é seguro que nunca nenhum deles lhe prestou uma atenção séria". 38 O dr. Marques era vizinho do Dr. Rizal em Rednaxela Terrace.
Pouco tempo antes da chegada deste último a Hong-Kong o Dr. Marques havia proposto, de forma pouco burocrática e inapropriada, que os presos de delito comum fossem deportados para o norte da ilha de Bornéu e ali se procedesse à sua regeneração.O Dr. Dr. José Rizal viera da Europa com a ideia de inciar uma colonização de gente livre do domínio espanhol no norte de Bornéu. Aqui está um ponto de contacto entre estes dois homens.
Outros existiam sem dúvida ambos médicos e investigadores, coleccionadores e grandes linguistas ( o Dr. Marques falava e escrevia diversos idiomas), viajados e cosmopolitas, o Dr. Rizal preocupado com a situação política da sua Pátria, o Dr. Marques republicano e radical. Que pena não se terem registado as conversas dos dois!
Parece-me seguro, no entanto, que abordaram a teoria darwinista da evolução das espécies porque o interesse do Dr. Rizal pela Natureza era muito semelhante ao do Dr. Marques Pereira. É curioso notar que o jovem Sun Yat-Sen era aluno do Dr. Marques Mendes na cadeira de jurisprudência médica no College of Medicine de Hong-Kong, a futura Universidade. Tem-se especulado sobre a possinilidade do Dr. Rizal e de Sun Yat-Sen se terem encontrado.
Não há prova disso "mas foi por pouco". Sun Yat-sen, já médico e casado, refugiou-se no território português de Macau onde viveu alguns anos. Ali se pode ver a sua casa, estranhamente deenhada em estilo árabe, hoje transformada em Museu. O Dr. Rizal registou por escrito uma visita que fez à Victoria Gaol de Hong-Kong na companhia do Dr. Marques 39. Era o dia 2 de Março de 1892. Às 9h30 partiu a pé com o Dr. Marques até à prisão e, depois deste ser saudado militarmente pelos guardas e empregados, passaram junto ao pátio interior onde se encontravam "numerosos polícias chineses e cipaios.
Os chineses estavam presos pelos seus rabichos; vimos um em farrapos preso por ladrão". "Um deles anunciou a nossa visita gritando Isang (Doutor). Os presos chieneses saudavam e apresentavam-se para inspecção levantando ambas as mãos até à altura da testa com as palmas viradas para fora..." No pátio avistámos uma multidão de presos - anémicos, pálidos, sujos". São quatro páginas pungentes de sofrimento humano, sobre o crime, a miséria, a prisão, a doença, a velhice, a punição. Páginas que todos deveriam ler e meditar, especialmente, permito-me até escrever, os estudantes de Direito.
Em Maio de 1892, o Dr. Rizal resolveu regressar às Filipinas. Em 20 de Junho, escreveu duas cartas, que selou e escreveu em cada envelope "para serem abertas depois da minha morte" entregando-as ao Dr. Marques.
38 Pag. 292 "Rizal in Hong-Kong", por Austin Coates. 39 Pag. 145 dos "Miscellanous Writings of the Dr. José Riazal, vol. II, Manila national Heroes Comission 1964.
Notou Austin Coates que seria talvez mais natural que as tivesse entregues a José Maria Basa. Não tê-lo feito "mostra o grau de compreensão que se formara entre os dois homens no curto período de tempo em que se conheceram" . 40 Em 21 de Junho o Dr. Rizal e sua irmã Lúcia partiam para Manila. menos de um m~es depois da sua chegada, o Dr. Rizal era exilado para Dapitan, na ilha de Mindanao, onde iria permanecer quatro anos. Em meados de 1895, o Dr. Marques reformou-se e regressou à sua Macau, onde continou a exercer medicina mas recusando-se a receber pagamento fosse de quem fosse.
O Dr. Rizal iria cumprir o seu trágico e glorioso destino, fuzilado em 30 de Dezembro de 1896 no actual Parque Rizal de Manila. No "Renacimeineto Filipino", de 28 de Dezembro de 1910, um amigo intimo do Dr. Rizal, ao falar com o Dr. Marques, obteve dele a seguinte opinião: "Coloco Rizal entre os homens de talento extraordinário.
A sua Pátria pode orgular-se em tê-lo por filho. Ponha o nome de Rizal no álbum dos grandes homens e o álbum ficará enriquicido com mais uma figura invulgar. Considero Rizal o Redentor da Raça Filipina e o seu fuzilamento foi um crime sem nome que deixa uma nódoa indlével na História de Espanha". 41 Era natural que o Dr. marques soubesse, através da imprensa ou através dos seus amigos de Hong-Kong, do que sucedera ao Dr. Rizal.
O Dr. Lourenço Marques veio a falecer em Macau, pouco mais de cinco anos passados, em 5 de Março de 1911, a República proclamada em Portugal cerca de cinco meses antes e o Povo Filipino, após uma difícil e sangrenta luta pela independência, agora dominado pelos Estados Unidos na pessoa do Governador-Geral, William Cameron Forbes.
40 Pag. 292, obra citada. Pag. 167 de "Rizal ante los ojos de sus conteporaneos", tomo XIII, livro primeiro, Edição do Centenário, Manila, 1961.
CAP.V
SÉCULO XX
As relações Macau-Manila e Portugal e Portugal-Filipinas afrouxaram e esbaterem-se nos primeiros vinte anos do século. Tanto Portugal como as filipinas atravessaram períodos difíceis. Todavia, em 1920, Portugal tinha um Cônsul em Manila, o Senhor Daniel R. Williams, referido no Anuário Diplomático e Consular daquele ano como ausente e estando a geir o posto o Senhor J.W. Ferrier.
Em llo-llo havia um Vice-Cônsul, não preenchido o lugar, contudo. Em 1921, ascendera a Cônsul o Senhor Ferrier que permaneceu no cargo até 1935. Em 1936 já era Cônsul em Manila, Angelo da Costa Carvalho, estando vago o posto em 1938. Dois anos depois, em 1940, exercia as funções de VIce-Cônsul em Manila Carlos Maria da Luz Nunes, que aqui permaneceria durante vários anos. Nascera na antiga e histórica freguesia da Sé de Macau em 13 de de Agosto de 1895.
Mas já residia em Manila antes de 1940 porque, em 15 de Fevereiro de 1938, casou-se na bela e antiga Igreja Malate com uma Senhora igualmente natural de Macau, D. Maria da Pureza Gomes d´Eça. Passou em Manila todo p difícil tempo de guerra. Em 4 de Julho de 1946, as Filipinas cumpriram o sonho dos seus maiores heróis e retomavam a independência completa sob Presidente Manuel A. Roxas apoiado pelo reconhecimento internacional de numerosos países.
E é curioso que tanto as Filipinas como Portugal enfrentavam, de novo, um período difícil, consequência da 2ª Guerra Mundial. Portugal conseguira permanecer neutro, embora não completamente, pois que Timor fora invadido e ocupado pelos japoneses mas os efeitos económicos faziam-se sentir com intensidade e eram pouco fáceis de ultrapassar. Portugal nomeou Humberto Alves Morgado , diplomata de carreira, como seu Cônsul em Manila enquanto geria também, interinamente o Consulado em Banguecoque.
Permaneceu em Manila de 16 de Maio de 1947 a Fevereiro de 1949. Continuava como Vice-Cônsul Carlos Maria da Luz Nunes e a direcção das instalações era 1335 Oregon, Paco. Humberto Morgado assistiu ao termo da presidência de Manuel A. Roxas, inesperadamente de Elpidio Quirino. Em 30 de Dezembro de 1961, Diosdado Macapagal assumia as funções de 5º. Presidente da República. O seu primeiro Ministro dos Negócios Estrangeiros foi o Embaixador Salvador P.Lopez, (1963-64), nomeado em 1965 Representante Permanente das Filipinas na Nações Unidas, onde permaneceu até 1969.
Sucedeu-lhe o Embaixador Mauro Mendez na pasta dos Estrangeiros. Em Portugal governava o Prof. António de Oliveira Salazar, sendo Ministro dos Negócios Estrangeiros o Embaixador Franco Nogueira. Tanto Salazar com Macapagal eram Professores de Direito, o primeiro especialista em Finanças e Direito Fiscal, o segundo em Direito Civil. Por essa época o primeiro Embaixador português residente em Manila foi nomeado em 10 de Outubro de 1962, tendo apresentado as suas credenciais ao Presidente Macapagal no Palácio de Malacañang em 21 de Junho de 1963.
Chamava-se Fernando Manuel Ferreira Lobão de Carvalho, nascera no Porto em 1917 e formara-se em Direito na Universidade de Coimbra. Tinha cerca de 46 anos. Permaneceu em Manila durante perto de dois anos, até 19 de Março de 1965. O presidente Macapagal decidiu, então, abrir uma Embaixada em Lisboa que ficou localizada na central e importante Avenida da Liberdade e cujos trabalhos, iniciais, foram confiados ao futuro Embaixador Garrido.
O Presidente Macapagal escolhera o Embaixador Eduardo L. Rozal diplomata de carreira, antigo Ministro em Colombo e que estava a desempenhar as funções de Chefe de Protocolo, mas o Presidente que lhe sucedeu, Ferdinando E. Marcos, nomeou um outro Embaixador, a Senhora Estela Romualdez Sulit, parente de sua mulher, Imelda. O segundo Embaixador português residente foi o Dr. António Luis de Magalhães de Abreu Novais Machado, igualmente licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra.
Apresentou credenciais ao Presidente Macapagal em 8 de Junho de 1965. Poucos meses depois, foi eleito como referimos o 6º. Presidente das Filipinas Ferdinando E. Marcos, tendo prestado juramento em 30 de Dezembro de 1965. Tomou posse simultânea o Vice-Presidente, Senador Fernando Lopez. Nesta cerimónia em representação do Presidente português, Almirante Américo Tomás, compareceu o Embaixador Novais Machado acompanhado do Cônsul Carlos Maria da Luz Nunes.
Ao deixar as suas funções, o anterior Presidente Macapagal empreendeu uma viagem à Europa, acompanhado de sua família. Quando Presdiente visitara oficialmente Espanha de 30 de Junho a 6 de Julho de 1962. Agora, como cidadão particular foi, de novo, a Espanha e também a Lisboa. Em Portugal foi recebido por Salazar, pelo Presidente da República, Américo Tomás e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira que lhe ofereceu um almoço, certamente no Palácio das Necessidades, sede do Ministério. Num dos livros que escreveu, "A Stone For the Edifice" - Memoirs of a Presidente", Macapagam faz breves referências a Salazar.
É uma obra altamente interessante pelo período histórico que descreve e pela relevante intervenção do Presidente Macapagal quer internamente quer na cena internacional. Aquele que havia sido o primeiro Embaixador português a residir em Manila, Lobão de Carvalho, fora entretanto nomeado Adjunto do Director-Geral dos Negócios Económicos e Consulares. Tendo-se deslocado a Manila aqui veio a falecer subitamente.
Em 11 de Fevereiro de 1967, pelo Embaixador Novais foi mandada rezar uma missa de requiem, tendo comparecido, em representação do Governo das Filipinas, o Subsecretário dos Negócios Estrangeiros, Manuel Collantes, membros do Corpo Diplomátic, a ""quase totalidade da comunidade portuguesa e muitos amigos do antigo Embaixador". Foi celebrante o Núncio Apostólico, Carlos Martini, a quem sucederia, nesse mesmo ano de 1967 Carmine Rocco. Este último estaria seis anos nas Filipinas, até 1973.
O Vice-Presidente Fernando Lopez, em meados de 1967, realizou uma visita oficial a Espanha e Portugal, tendo regressado a Manila em 5 de Agosto. Em 19 do mesmo mês, o Embaixador Novais machado, depois de três anos e cinco meses, foi trasferido como Embaixador para Montevideu, Urugai. Sucedeu-lhe, como terceiro Embaixador português, Júlio Menino Salcedas que permaneceu até 27 de Setembro de 1972. Em 30 de Dezembro de 1969, efectuaram o juramento e assumiram funções o Presidente reeleito, Ferdinando E. Marcos, e o Vice-Presidente Fernando Lopez. Em 27 de Novembro de 1970 as Filipinas receberam a visita do Papa Paulo VI.
Em 1 de Junho de 1971, reuniu-se uma Convenção Cosntitucional no Fiesta Pavilion do Manila Hotel, tendo sido aberta pelo Presidente Marcos. Todavia, vários delegados sairam como protesto contra a Administração do Presidente. 42 Em 21 de Agosto, ocorreu o Massacre da Praça Miranda. Em 23 de Setembro, o próprio Presidente anunciou na rádio e na televisão a proclamação da lei marcial. De novo, havia um paralelo na situação dos dois países quanto às dificuldades que viviam pois em Portugal o regime político criado e mantido por Salazar e prolongado pelo Prof. Marcelo Caetano aproximava-se do seu fim com consequêncais imprevisíveis.
Em 27 de Setembro de 1972, o quarto Embaixador português residente tomava posse, Frederico José de Sousa Teixeira de Sampaio. De Março a Julho de 1974, Francisco Pessanha de Quevedo Crespo exerceu as funções de Encarregado de Negócios a.i. . Ora em 25 de Abril de 1974, as Forças Armadas derrubam, em Portugal, o velho regime, tendo como objectivos essenciais: 1º. democratizar o País; 2º. desenvolvê-lo economicamente; 3º. descolonizar. Em 1975, cinco novos países haviam ascendido à independência e tomavam lugar nas Nações Unidas: Angola, Moçambique, S. Tomé e Princípe, Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Todos eles, juntamente com o Brasil e Portugal fazem parte da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (C.P.L.P.) fundada em Julho de 1996. Permaneceram por descolonizar Macau e Timor. Quanto a Macau, um processo de negociações com as Ãutoridades chinesas conduziu à assinatura da Declaração Conjunta de 15 de Abril de 1987 que define o seu estatuto: território chinês sob administração portuguesa até 20 de Dezembro de 1999.
Quanto a Timor, cuja ocupação militar pela Indonésia não foi aceite pelas Nações Unidas, prosseguem as conversações luso-indonésias sob a égide do actual Secretário-Geral das Nações Unidas, Senhor Kofi Annan, que nomeou como seu representante pessoal para o assunto o Embaixador do Paquistão, Senhor Jamsheed Marker. O Embaixador Teixeira de Sampaio permaneceu em Manila até 27 de Agosto de 1976, altura em que a Missão foi encerrada por ordem de Lisboa. A Missão filipina em Portugal sofreu o mesmo destino. Iremos assinalar dois factos importantes para Portugal e as Filipinas ocorridos em anos sucessivos.
42Pag. 367 "The Philippines: a Unique Nation" por Drª. Sonia M.Zaide, 1994
Em 12 de Junho de 1985, Lisboa assinou o Tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia, iniciando um novo período de vida internacional nos seus quase novecentos anos de história como país independente. Em Fevreiro de 1986, eclodiu, em Manila, o movimento que ficou conhecido por EDSA/86, chefiado pelo Ministro da Defesa, General Juan Ponce Enrile, pelo Vice-Chefe do Esatdo Maior, Tenente-General Fidel Valdes Ramos e apoiado pelo Cardel Jaime Sin e que veio pôr termo ao poder que há 20 anos exercia Ferdinando Marcos.
A Democracia foi restabelecida de acordo com as melhores tradições políticas filipinas e a Senhora Corazón Aquino eleita 7º. Presidente das Filipinas . Em 1990, nomeou como Embaixadora das Filipinas em Lisboa, com residência em Paris, a Senhora Rosário G. Manalo, mais tarde, em 1994. Embaixadora na Suécia. Sucedeu-lhe no cargo, a Embaixadora Rora Tolentino-Navarro, já designado pelo Presidente Ramos, tendo apresentado as suas despedidas, em Lisboa, em fins de 1996.
As Flipinas mantêm um Cônsul honorário em Lisboa, o Senhor Manuel Pinheiro. Entretanto, Portugal havia designado como Embaixador não residente em Manila, primeiro Chefe da Missão em Tóquio e, depois, o Chefe da Missão em Seul. O último a exercer este cargo foi o Embaixador Manuel Gervásio Martins de Almeida Leite, desde 21 de Abril de 1994 até 1997 enquanto era Embaixador residente em Seul desde 1 de Setembro de 1991. Se não existissem outros motivos só o facto de as Filipinas e de Portugal serem Democracias bastaria para as aproximar mas, para além disto, centenárias as relações históricas, a partilha de uma comum cultura latina e da religião católica vem reforçar o seu natural entendimento.
Em 28 de Outubro de 1995, tomou posse o Governo do Primeiro-Ministro, Eng. António Guterres, tendo como Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Dr. jaime Gama que já havia exercdio idênticas funções de 1983 e 1985. E. logo no ano seguinte ao da formação do novo Executivo, foi decidido reabrir a Missão em Manila com um Embaixador residente.
Solicitado o "agrément" por intermédio da Embaixada portuguesa em Paris foi este concedido e nomeado pelo Decreto presdiencial nr.30/96, sob proposta do Governo, o Ministro Plenipotenciário Dr. João Henrique Araújo Brito Câmara. Em 11 de Fevereiro de 1997, teve o autor a honra de apresentar as cartas credenciais a Sua Excelência o Presidente Fidel Ramos, no Palácio de Malacanang, depois da cerimónia de deposição de uma coroa de flores no monumento ao Heroi da Independência das Filipinas, Dr. José Rizal.
Logo em Março seguinte, de 2 a 4, o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Eng. José Lello, e comitiva, visitaram Manila, tendo havido conversações com o Embaixador Leonides Caday, encarregado da área de emigração no ambito do Ministério dos Negócios Estrangeiros e com o Dr. Edgardo Mendoza, Comissário para a Imigração.
Foi também, recebido pela Associação Portugeusa das Filipinas. De 20 a 22 de Maio, o Secretário de Estado do Comércio e Turismo, Dr. Jaime Andrés e Delegação, deslocaram-se a Manila para a reunião do "World Tourism Organisation". O Dr. Jaime Andrés foi recebido pela Ministra do Turismo, Senhora Mina Gabor, tendo sido proposto um Acordo de Cooperação Turística. Deve notar-se que as Filipinas estão representadas na Expor-98, de Lisboa, que será aberta em Março.
De 22 a 29 de Junho, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Jaime Gama, e comitiva, que incluia o Director Geral das Relações Bilaterais, o antigo Embaixador em Tóquio, Dr. João Salgueiro, visitaram oficialmente Manila, tendo sido recebido por Sua Excelência o Presidente Fidel Ramos. Houve, depois, conversações co o MInistro dos Negócios Estrangeiros, Senhor Domingo L. Siazon e Secretário de Estado, Embaixador Rodolfo Severino, com o Ministro do Comércio, Senhor Cesar Bautista, com o Comissário para as Artes e Cultura, Senhor Jaime Laya, e com o "Speaker", Senhor José de Venecia.
Foi o Dr. Jaime Gama igualmente recebidos por S.E. o Cardeal jaime Sin e a Câmara de Comércio Europeia das Filipinas ofereceu-lhe um jantar. foram propostos dois Acordos, um Cultural e outro de Comércio, Tecnologia e Ciência. O Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira e comitiva deslocaram-se a Manila de 17 a 21 de Julho. Sua Excelência o Presidente Fidel Ramos recebeu o General Rocaha Vieira e este assinou, juntamente com o Minsitério dos Negócios Estrangeiros, Senhor Domingo L. Siazón, um Acordo aéreo.
O Secretário-Adjunto do Governo, Dr. Salavessa da Costa assinou um "Memorandum of Understanding" para o Turismo com a Senhora Mina Gabor, Ministra do Turismo. O Cardel Sin oferecu um almoço ao Governador de Macau e este deu uma recepção, no Manila Hotel, para cerca de 350 convidados do mundo do turismo e dos negócios. Compareceram também os Embaixadores da Dinamarca, espanha, Índia. Japão, Nova Zelândia, Ordem de Malta, paquistão, e representante da Austrália.
Foi, entretanto, proposto um Acordo aéreo luso-filipino. Parece, deste modo, que um novo e desejamos que mais proveitoso capítulo nas seculares relações luso-filipinas acaba de se abrir. Sem qualquer dúvida haverá que trabalhar intensamente nos próximos anos para que os dois países desenvolvam uma multiplicidade de ralações - políticas, económicas, culturais, turísticas - que a sua longa História exige. João Brito Câmara
À MARGEM
O Homem Põe e Deus Dispõe. O senhor Embaixador Brito Câmara oferece-nos uma completa panorânica como têm sido as relações diplomáticas entre Portugal e as Filipinas desde o princípio do século XVI e de quando os portugueses ligaram o Ocidente ao Oriente.
Nos últimos parágrafos do relatório é de salientar o entusiasmo do Senhor Embaixador Brito Câmara desenvolver o relacionamento: cultural, comercial, turístico e científico com as Filipinas. Como acima o referimos o Homem Põe e Deus Dispõe e nem sempre a Obra que homem sonha é trazida à realidade. Na altura que o Senhor Embaixador Brito Câmara foi acreditado, como Embaixador em Manila, a administração portuguesa de Macau faltavam-lhe dois anos para chegar ao seu termo.
O Senhor General Rocha Vieira, o último Governador de Macau, durante o seu mandato foi fundada a "Air Macau" e havia a necessidade do Senhor Governador firmar acordos aéreos com países do Sudeste Asiático. A Tailândia assinou um a que tivemos o prazer de assistir. A "TAP- Air Portugal", voava de Lisboa - Banguecoque - Macau.
Previa-se um futuro risonho entre Portugal e os países da Ásia. Tal não viria aconteceu! A TAP, uns meses antes de Macau passar para a China, deixou de voar para a Ásia. Assim o sonho do Senhor Embaixador Brito Câmara ficou pelo caminho. A Embaixada de Portugal em Manila (pensamos), já encerrou ou irá encerrar muito em breve.
Afonso de Albuqerque também sonhou fazer um Portugal grande na Àsia... Foi-o, mas todos os impérios e países têm o seu auge de vida. Os homens também o têm, mas o tempo provoca mudanças e tudo que tem vida, mais tarde ou cedo, morre.
José Martins
