Desconhece-se o autor da carta, enviada da Índia para o Rei D. Manuel I. Mas como nela se encontra designado o nome de Lopo Soares, teria sido escrita entre 1515 a 1518., altura que foi Governafor da Índia.
(Torre do Tombo, V.X. (Gav. XIX-XX, Maços 1-7) pags. 504 a 508, Centro E.H. Ultramarinos da Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1974 - Gulbenkian XVI. O texto é fiel, apenas para facilitar a leitura, foram algumas frases passadas à ortografia actual).
CARTA PARA EL-REI COM NOTÍCIAS DA ÍNDIA
"Até aqui não me estrevi de escrever a Vossa Alteza tão compridamente como eu desejava porque não ousava das cousas que se fazem contra serviço de Vossa (sic) Alteza e agora por ver passar tanto mal como se passa por descargo de minha consciência vos dou conta beijando-vos as mãos não dando conta a ninguém disto que por este medo não esperei a Vossa Alteza mais cedo e assim que faço saber a Vossa Alteza que Lopo Soares veio à Índia em hora minguada assim ele como quantos capitães com ele vieram e assim outros homens de valia porque o seu cuidado e o seu imaginar não é outro senão chatinar... "
"... e matam-nos e roubam quanto acham e disto dizem que o leva alguma fazenda e vai para Calecut ou para Canenor é espiado em tal maneira que como desaparece de Cochim logo é tomado destes macúas, porém, sempre ouvi dizer que semear trigo em ruim terra que não pode dar bom fruto... a Vossa Alteza e estes que dele esperam se gabou ele, que dera a cada um de ganho sete ou oito mil pardaos e ele é um grande ladrão descarado porque qualquer fazenda que ele pode achar de Vossa Alteza apanha-a e recolhe-a para si e com os favores que ele tem com os alvarás de Vossa Alteza com o dos vossos capitães com o proveito que faz ele isto porque nele não há fé nem lei senão quanto me parece que e agora mais gentio que dantes e por aqui saberá Vossa Alteza quanto ele é servidor de Vossa Alteza e mais Lopo Soares o requereu que fosse com ele a Ceilão e ele fugiu....
"...Mande Vossa Alteza olhar por isso e assim se Vossa Alteza a acha grande quebra de pimenta e por ser a primeira verde porque assim como a colhem deitam-na dous ou três dias ao sol e logo a pesam e esta quebra desta pimenta não foi senão depois que fizeram pazes com Calecut e bem pode Vossa Alteza quer ter boa pimenta defenda que nenhum homem com ela não trate só pena da cabeça e isto qualquer homem que seja porque todo o mais passa por preta e portanto Vossa Alteza não deve de dar a nenhum homem nenhum só quintal de pimenta para nenhuma parte que seja porque com o favor da pimenta que lhe Vossa Alteza dá para carregaram quanta querem e portanto Malaquias se gabou e amostrou que não vinha nem mandava por pimenta à Índia que lha levavam quanta ele queria que carregava as suas naus e depois de carregadas amostrou duas casas..."
"...e isso mesmo o feitor de Goa que se chama Rui Costa que agora vai por capitão duma das naus de André Afonso que quando veio a Portugal não trazia um vintém de seu e em dous anos que foi feitor de Goa dizem que leva vinte mil cruzados e assim que devia Vossa Alteza de lhe tomar a conta em que ganharam tanto dinheiro em tão pouco tempo assim ele como aos outros e Vossa Alteza mandasse castigar alguns dele
s se guardariam de meter as mãos na Fazenda de Vossa Senhoria...."
"...a Índia de arte que ela estava quando veio Lopo Soares mande fazer boa guerra e logo terá boa paz porque já ninguém não vos a modo que qaulquer cabrão que errar queimá-lo a assá-lo e cruxifica o que os outros que ficaram vos temerem e logo teres a Índia apaziguada que esta paz que Lopo Soares pôs a Índia neste ponto em que ela agora está porque nunca matou nem mandou matar mouro senão cristãos enforcar e cortar mãos..."
"...a Índia de arte que ela estava quando veio Lopo Soares mande fazer boa guerra e logo terá boa paz porque já ninguém não vos a modo que qaulquer cabrão que errar queimá-lo a assá-lo e cruxifica o que os outros que ficaram vos temerem e logo teres a Índia apaziguada que esta paz que Lopo Soares pôs a Índia neste ponto em que ela agora está porque nunca matou nem mandou matar mouro senão cristãos enforcar e cortar mãos..."
"...porque andam cá uns poucos fidalgos mamões que nunca viram nada nem nunca saíram das abas de suas mães e cá são capitães de naus e de galés e assim estes homens que Vossa Alteza houver de mandar sejam como disse que sejam de boa raça cavaleirosos e que folguem de ganhar honra e que tenam medo de Vossa Alteza lhe mandar corta a cabeça porque os fidalgos dizem todos que não vieram à Índia ganhar honra que com eles já nasceu senão dinheiro e assim não trazem o sentido senão em comprara e vender e como mandaram para a China e para Ormuz e para outras quaisquer partes..."
"...em Cochim disseram que aquela mercadoria que a compraram de seu dinheiro que el rei não tevera dinheiro para a comprar e assim que vo-la tornaram a vender sendo ela vossa e assim que com o dinheiro vosso dinheiro vos pagavam e guardavam o ganho para si e se alguma mercadoria vossa vem misturada com as das partes e se perde ou apodrece as das partes dizem que é da Vossa Alteza e assim tomam outra tanta da vossa são para si e fica a pôdre para vós e assim que nunca se perde nada das partes que quanto se perde tudo é de Vossa Alteza e o seu sempre fica...."
À MARGEM
Afonso de Albuquerque, além de um homem de grande valor é um guerreiro indomável. Depois de ter conquistado Ormuz em 1507, Goa em 1510, sonha e tornou em realidade a criação de um império português na Ásia. Em 1509 sucede, com o título de Governador da Índia, o vice-Rei D. Francisco de Almeida. O nome de Albuquerque foi respeitado e temido em todo o Oriente. Em Lisboa tem muitos inimigos que minam a honestidade do fidalgo ilustre.
D.Manuel I, deixa-se influnciar e aceita as mentiras, tira-lhe o Governo e entrega-o a Lopo Soares de Albergaria, o seu mais directo rival. Albuquerque não consegue sobreviver ao desgosto da humilhação e morre em 1515. Os fidalgos do tempo de sua governação, aqueles que não foram depostos das suas funções depois de ter falecido, continuaram a ser-lhe fieis, embora, como é óbvio, Lopo Soares de Albergaria, persegue-os e tolhe-lhes os movimentos. São homens de Albuquerque que escrevem cartas denunciantes a D. Manuel I, que pouco efeito, as acusações, produzem.
O Rei está com o Albergaria. No entanto este colhe os frutos saborosos das conquistas do grande general. Os interesses pela pátria portuguesa não cuidam os nobres fidalgos da Corte de D. Manuel I. A anarquia instalou-se por todo o Oriente e, "mais cuidavam dos seus ganhos pessoais", que a servidão a favor da monarquia que representa o Povo.
José Martins